Todos, todas e todes: Um debate sobre nossa língua e do que é inclusão

A temática da linguagem neutra vem sendo debatida há muito tempo na sociedade, mas sua visibilidade ganhou destaque no Brasil quando começou a ser adotada pelo atual governo do país já em suas primeiras cerimônias oficiais após a sua posse. “Boa noite a todos, todas e todes”, “Quero convidar a todos, todas e todes…”.

Creditis? Pois pode acreditar!

A expressão acima está escrita em latim e quer dizer “Acredita?”. Mais a frente você vai entender…

A língua portuguesa é vista como a disciplina mais difícil de ser estudada e de compreensão sobre suas regras. Aliás, muitos brasileiros falam que nem sabem falar a própria língua direito, imagina aprender outro idioma. Mas isso é só um detalhe que lembrei agora, não é nada pessoal.

Cheia de normas e aspectos diversos em sua composição, a língua portuguesa tem como origem o latim vulgar que misturou-se com “outras formas de falar” e deu origem a outras línguas que conhecemos hoje. Mas calma, caro leitor! Vou te explicar essa parte para que cheguemos ao assunto principal desta discussão: a tão comentada linguagem neutra. Já vou adiantando que existe a língua padrão e as linguagens dos grupos sociais com suas formas de comunicação.

Primeiramente, a nossa língua é uma ciência, ou seja, as normas do português que temos hoje representam todo um estudo e conhecimento sobre as práticas e pesquisas feitas ao longo do tempo. A língua que falamos hoje tem bastante história para contar, afinal, ela sofreu muitas influências com o passar dos anos. O latim falado pelos romanos, dividia-se no latim falado pelos nobres e no latim mais coloquial falado pelo povo, o latim vulgar, este que sofreu muitas alterações com o passar dos séculos e que foi consequentemente se transformando com a sua expansão geográfica em muitos continentes.

Como resultado dessa ampliação do Império Romano ao longo das províncias conquistadas, houve uma fusão do latim vulgar falado pelos plebeus com os dialetos das regiões ocupadas, levando essa mistura a ganhar novas fronteiras.

O tempo foi passando e a partir de toda essa mescla de línguas – e dos fatores políticos e geográficos - chegamos ao galego português, de onde surgiu o francês, o espanhol, o italiano e o português. Detalhe importante a ser considerado é que todo esse processo não aconteceu de um dia para o outro, mas de forma gradual.

Temos uma língua estruturada historicamente e que evoluiu naturalmente com o passar dos anos. Diferente do que está acontecendo hoje.

Uma coisa é um grupo social exigir seus direitos – nada mais justo – e respeito sobre suas escolhas e ideias, outra coisa é querer introduzir artificialmente uma linguagem que mude a estrutura padrão da nossa língua com o intuito de atender à detalhes pronominais de tratamento que não vão tratar a questão do respeito mútuo entre as classes.

É saudável que bandeiras sejam levantadas, mas será que a linguagem neutra será efetivamente introduzida na nossa língua um dia? O que você acha, querido leitor? Será que a introdução de pronomes neutros na língua portuguesa irá resolver o problema da inclusão social de quem se enxerga não-binário? Tal questão vai muito além da forma como as pessoas devem se dirigir a quem não se inclui nem no gênero feminino e nem no masculino. Porém existe a luta – muito válida por sinal – e a parte técnica da língua.

Esse é um assunto bastante delicado, pois quando falamos em linguagem não-binária, logicamente entendemos que deve se tratar de uma comunicação dialética entre os grupos LGBTQIAPN+. E está tudo bem! A questão é quando essa forma de diálogo com pronomes neutros adentre, por exemplo, o ensino técnico da língua portuguesa e a norma padrão do nosso idioma, ou seja, a gramática normativa, pois, por mais que o pronome de tratamento “todos” esteja no masculino, isso não significa que possuamos uma língua machista, mas que esse é o resultado da fusão do pronome masculino com o pronome neutro que existiu no latim, fazendo com que o masculino se tornando-se o mais abrangente na língua sobre as formas de tratamento para ambos os gêneros em algumas situações, portanto, o neutro da língua.

Portanto, espero que “todos” compreendam a reflexão feita neste texto. Preconceitos precisam ser combatidos, mas muitas coisas precisam ser avaliadas dentro dos diferentes contextos sociais.

Que bacana que a nossa língua possui uma variação tão rica dentro de um mesmo país, assim como todo grupo social possui sua linguagem específica de entendimento dentro do seu contexto, isso é incrível! Mas quando falamos em respeito e inclusão outra coisa precisa ser trabalhada: o respeito entre as pessoas das formas mais simples. Esse único ingrediente é capaz de mudar muita coisa, creditis!

 

Maria Daniele de Souza Lima

Professora, estudante de jornalismo e colunista.