Jocelino Tomaz: o homem que ama os livros

1. Você poderia se apresentar?

Sou Jocelino Tomaz de Lima, sou caiçarense, tenho 45 anos. Coordeno o Grupo Atitude, que desde 2005 promove voluntariamente a leitura e a cultura em Caiçara, particularmente pesquiso e divulgo a história e a cultura da minha cidade. Sou licenciado em Geografia e bacharel em Direito, exerço a profissão de Técnico Judiciário na Comarca de Belém-PB.

2. Qual o seu envolvimento com a cultura?

Desde a infância fui incentivado a ler e adquiri esse hábito. Sempre apreciei a cultura nordestina e gostei de História, com isso, na juventude, passei a me envolver em ações culturais, posteriormente em pesquisas e também fui ampliado meu leque de interesses. Assim, desde 2005 passei, a frente do Grupo Atitude, a promover a leitura na cidade, a época sem biblioteca em funcionamento, e também intensifiquei e diversifiquei minhas pesquisas historiográficas e culturais, abrangendo história da minha cidade e da Paraíba como um todo. Algo semelhante aconteceu com a música, passando a pesquisar sobre ícones da nossa cultura, em especial Jackson do Pandeiro.

3. De onde surgiu esse amor por livros?

Sou o caçula da minha família e meus irmãos mais velhos me incentivaram principalmente com gibis. Na escola também tínhamos uma prática de leitura em sala de aula, coisa que falta em muitas atualmente. Dos livros infantis e gibis, para livros de aventura, depois romances da literatura brasileira, livros sobre temas que tinha curiosidade, a revista Superinteressante também marcou muito (assino até hoje), assim fui ampliando minhas áreas de interesse e meu amor pelos livros.

4. Como se chama o seu grupo?

Grupo Atitude, como a cidade não tinha biblioteca e sendo eu professor e tendo consciência da importância da leitura, precisava tomar uma atitude que não poderia ser sozinho, daí “Grupo Atitude”.

5. Como você o criou?

Fui coordenador da Secretaria de educação de Caiçara de 1999 a 2004 e infelizmente não consegui por vias governamentais fazer com que fosse dada a devida importância a questão da leitura, não conseguimos reabrir a biblioteca municipal, por exemplo. Ao ser afastado do cargo, vi que não podia desistir e que podia fazer algo de forma independente, assim convidei dezesseis amigos que tinham ideais semelhantes aos meus e tomamos em nossas mãos a missão de criarmos um espaço de leitura em Caiçara, iniciamos as atividades em 2005 e em 18/04/2006, Dia do Livro Infantil (nascimento de Monteiro Lobato), inauguramos a “Casa da Leitura”, com um acervo diversificado, além de livros, gibis, cordéis, revistas da atualidade, enfim, uma variedade para que o visitante venha a ler por prazer.

6. Como faz para organizar as bibliotecas?

Os parceiros iniciais eram em sua maioria professores e não tinham tempo de ficar na biblioteca, assim desde o início sabíamos que necessitaríamos de jovens voluntários e convidamos nossos alunos. Cada voluntário fica um turno por semana. Após a “Casa da Leitura”, em 2010 abrimos a “Lanchoteca Atitude”, uma segunda biblioteca em parceria com uma lanchonete; e em 2012, a terceira “Biblioteca Novos Horizontes”, junto com uma associação beneficente da cidade. Buscamos doações de livros. De 2006 a 2013 realizamos voluntariamente um cursinho pré-vestibular, cuja taxa simbólica que era cobrada era revertida para as bibliotecas. Buscamos colaboradores que doem uma pequena taxa mensal. Depois da biblioteca e do cursinho, outros projetos foram surgindo como um programa semanal de rádio, projetos em parceria com escolas, “Natal Rural”, Papai Noel presenteando crianças da zona rural com brinquedos, livros infantis e gibis; “Natal Literário”, presenteando crianças da cidade com livros e gibis; “Barraca da Leitura” na feira livre (de 2015 a 2018); “Leitura em Cadeia”, com detentos de Caiçara, Belém e Serraria (de 2015 a 2017); “De Ponto em Ponto, uma Cidade Leitora”, pontos de leitura em estabelecimentos comerciais (de 2016 a 2020); tivemos também grupo de teatro, curso de desenho, feiras literárias, exposições culturais, etc.

7. Teve algum tipo de reconhecimento pelo seu grupo?

Além do reconhecimento pelos caiçarenses, tivemos projeção estadual através de várias matérias de jornais, sites e TVs que destacaram nossos projetos. Conquistamos premiações da Associação de Bibliotecas Públicas da Paraíba e o Prêmio VIVALEITURA, da OEA (Organização dos Estados Americanos) em parceria com o MEC. Infelizmente, nos últimos anos os resultados dos nossos projetos não têm sido o esperado, as pessoas estão lendo cada vez menos e certamente estão perdendo muito com isso.

8. Você já escreveu algum livro?

Mais ou menos, escrevi um livreto (40 páginas) sobre a história de uma tradicional festa da minha cidade “Festa da Pedra, Cem Anos de Fé, Tradição e Turismo” (2018), o rochedo na verdade fica no território de Tacima, mas o melhor acesso se dá por Caiçara, desde 2013 as cidades de Caiçara, Tacima e Logradouro organizam a festa em 15 de agosto. Também escrevi o livreto “100 Fatos dos 100 anos de Jackson do Pandeiro” (2019). Também publiquei algumas plaquetes sobre filhos ilustres da minha cidade.

9. De onde surgiu a paixão pela história de Jackson do Pandeiro?

Até 2017 admirava Jackson e curtia as cerca de quinze músicas que a maioria das pessoas conhecem. Naquele ano li a biografia “Jackson do Paneiro, o Rei do Ritmo” (Fernando Moura e Antonio Vicente) e pouco depois visitei o memorial dele em Alagoa Grande, a partir daí tive ideia da dimensão da sua importância e da sua produção, mais de 400 músicas, que desconhecia, a partir de então passei a ouvir mais ele, reunir material, etc. virei fã e pesquisador. Em 2019, ano do seu centenário, já possuindo um bom acervo de livros, cordéis, revistas, CDs, LPs, DVDs de filmes (ele também atuou no cinema), me interessei em realizar palestras e exposições, além de escrever um livreto resumindo cronologicamente sua vida, sua obra e os acontecimentos referentes a ele até aquele ano. Também “descobri” uma música que não constava em nenhuma discografia. Assim foram mais de trinta eventos em mais de vinte cidades naquele ano, além de muitas matérias em sites, jornais e TVs, após segui com outras ações divulgando Jackson como por exemplo uso de sua biografia em quadrinhos e cordel em escolas, programas de rádio em sua homenagem, etc.

10. Tem uma filosofia de vida?

Muitas, mas referente à busca do conhecimento e evolução cultural, creio que nunca devemos parar de aprender, que não devemos nos satisfazer com uma simples consulta ao Google, seremos mais felizes ao percebermos que estamos adquirindo mais conhecimento e ampliando nosso repertório cultural e a melhor forma para isso é a leitura. Outras pode ser conhecendo lugares, assistindo coisas que nos acrescente algo, conversando com pessoas interessantes, interagindo com amigos (não só virtual, mas principalmente fisicamente), gente que a gente gosta faz muito bem a gente, “A vida é arte do encontro” (Vinícius de Morais).

11. Gostaria de deixar alguma mensagem?

Em tempos em que muitos estão mergulhados uma verdadeira cacofonia digital, que torna suas mentes aceleradas a ponto da leitura de uma página de leitura, como essa entrevista, parecer um sacrifício; em tempos em que a maioria das músicas ouvidas são apenas “batidas” para propagação de condutas prejudiciais, como bebedeira, pornografia, vulgarização da mulher, etc. É preciso que quem tenha consciência que isso está errado fale. É preciso que os jovens tenham sabedoria para o uso moderado da tecnologia feita para viciar, tenham personalidade para dizer que certa música e certo artista não prestam, mesmo que seja o sucesso do momento. “Para que o mal triunfe, basta que os bons fiquem de braços cruzados” (Edmund Burke).

Redação Nordeste 1