Animais que ninguém quer ver

Definitivamente não, eles não são invisíveis – embora algumas vezes pareçam, tão despercebidos passam no meio do cotidiano. E, definitivamente, eles estão ali.

Eu confesso que só comecei a perceber quando passei a enxergar o mundo com outros olhos. Então me dei conta de que muitas vezes estava sentada em cima deles. Ou, pior ainda, pisando neles.

De uma forma ou de outra estavam todos inseridos em minha rotina e na de muitos ao meu redor. Quietos, calados, mudos. Mesmo sem dar seu consentimento, estão ali. Mas, com certeza, se estão ali, é com nosso consentimento e ou omissão.

Estão todos lá, olhar caído, dor estampada nos olhos, com a humildade que lhes é exigida para ser útil à humanidade. Sangue escorrendo pela face. Uma morte por uma boa causa, diz quem quer se livrar da própria consciência.

Animais em pedaços. Histórias interrompidas. Morte oculta em nosso cotidiano. Mas quem quer ver?

Sem os óculos reveladores a vida fica mais fácil. A geladeira só tem comida – nada de pedaços de cadáveres; os produtos de beleza revelam só beleza – e não a feiúra da morte que os compõem.

E então, sentado sobre o sofá de couro, é tranquilizador aninhar o cãozinho de estimação no colo tão bem cuidado, tão bem tratado, passar a mão em seu pelo macio e sentir como é bom viver em harmonia com os animais.

Roberta Petrile