Caricato, mas não tanto

Após a exibição no último domingo, em rede nacional, da matéria mostrando o Bar de Neco Rato, oportunidade em que a cidade ganhou razoável espaço televisivo em “horário nobre”, alguns aspectos sobre o jornalismo humorístico proposto e levado ao ar pela Record, bem como por outras emissoras de TV, podem e devem ser pontuados.

Perseguindo o formato fundado no Brasil pelo jornalista Mauricio Kubrusly, o repórter Samukinha, paraibano, juntamente com uma equipe do programa Domingo Espetacular, baseada no Sudeste, estiveram em Guarabira, “cidade localizada no Sertão da Paraíba” para conhecer a bodega/bar de Neco Rato, um lugar onde, de acordo com a reportagem, os clientes compram fiado, demoram a pagar e recebem a cobrança em forma de “lembranças”, mandadas pelo dono do bar por um amigo comum, ou através do rádio.

Mesmo sendo habitué da bodega, fui pego de surpresa para ser entrevistado pela equipe televisiva. Se soubesse que a matéria seria editada e apresentada da forma e com a conotação que foi, não teria aceitado participar. Particularmente nunca tinha visto o quadro do programa.

A falta de noção da geografia foi a mais elementar das “barrigas”, como se diz no jargão jornalístico e, possivelmente, a menos grave. Para muitos os que habitam o Sudeste, tudo que existe depois das capitais nordestinas é sertão.

Talvez premido pauta, somado ao desejo de produzir algo engraçado, o jovem entrevistador deixou de lado a história do bar/bodega, recheada de humor autêntico, para construir um ficção sofrível e atender os desejo e apressa editorial da Rede para a qual trabalha. A invenção de um tal “prego card” foi uma das pinceladas mais exageradas da caricatura criada, pois a expressão jamais havia sido usada antes no âmbito da bodega. Por vezes, a reportagem atinge as raias da grosseria, ao tratar genericamente de caloteiros todos os clientes do estabelecimento.

Neste particular, há que se considerar o peso semântico e a diferença existente entre fiado e calote, que é bem acentuada.Todos os fotografados no interior do bar e colocados no painel de entrada do estabelecimento, são frequentadores do bar sim, mas não necessariamente devedores, nem estão ali por esse motivo.

O formato bodega é uma das mais ricas tradições comerciais brasileiras e, infelizmente, parece estar com os seus dias contados. Nesse tipo de estabelecimento impera a pessoalidade. Na maioria das vezes, carrega como marca forte o nome do dono. O caderno de fiado, longe de ser uma novidade, é uma tradição. Uma das peculiaridades da bodega de Neco é que os clientes se instalam por dentro e por fora do balcão, dificultando a quem vai lá pela primeira vez identificar o dono do estabelecimento.

É lamentável que as nossas bodegas estejam dando lugar aos “mini boxes”, com os seus “check-out”repletos “hardwares”, por sua vez entupidos de “softwares”, cheias de “displays”, um verdadeiro “self-service”, onde tem até “wi-fi”. Não possuem mais balcão e o freguês virou cliente. O fiado é pratica cada vez mais em desuso. O dono da moderna bodega posta-se sentado nos tais “check-out” , de costas para rua e de olho nos clientes, numa atitude de vigilância, deixando interagir com eles para uma boa prosa.

A bodega de Neco Rato em Guarabira, como outrasque resistem na cidade e na região, são pontos privilegiados de interação cultural, social e política. São lugares que beiram o sagrado, pois representam uma tribuna onde as diferenças sociais e econômicas se tornam menos acentuadas e onde é possível a abordagem de todos os temas, seja futebol, religião, política e até do mais doce de todos o assuntos, que é falar do governo e de todos os poderes opressivos, de uma maneira geral, em todas as suas esferas.

Em bodegas como a de Neco se tenta beber a vida em goles mais lentos, embalados ao som das boas polêmicas, sempre regidas pela autoridade sensata do bodegueiro que,com a sua camaradagem, bota os mais bêbados para casa e harmoniza de forma orquestral o caldeirão de opiniões, chegando a pacificar, inclusive, intermináveis partidas de bozó. Funciona, pois, como verdadeira caixa de ressonância da vida citadina.

A bodega mostrada na TV, onde alguns clientes, inclusive eu aparecemos, só existe na tosca e pouco imaginativa caricatura feita pela Record. Não carrega consigo o selo das coisas simples e bem humoradas que existem pelo interior do Brasil.

No poema Infância, o poeta Drumond de Andrade,ao descrever o ambiente rural dos seus primeiros anos, descobre que a sua história é mais bonita do que a de Robinson Crusue.

Me perdoem o repórter e a Rede, mas a história da Bodega de Neco Rato em Guarabira, bem como a de outras bodegas da cidade e da região, é mais bonita e bem humorada do que a que foi contata por Samukinha. Para finalizar, o “não me avexe” de Paulo Henrique Amorim ao chamar o final da matéria, deve ter revirado Ariano Suassuna no túmulo, uma vez que não nos expressamos desse jeito tão afetado.

SAIBA MAIS Guarabira é destaque nacional pela Rede Record

Alexandre Henriques
ahluc@uol.com.br