Estação Ferroviária de Guarabira: “O triste abandono de nossa rica história”

(Foto: Reprodução/Portal25horas)

O trem, famosa, invenção dos ingleses, foi o fruto do progresso trazido pelos ventos da Revolução Industrial, e como conseqüência, revolucionou o transporte mundial encurtando distâncias em pouco espaço de tempo.

Ao longo dos séculos, o trem vem sido imortalizado através de poemas, textos e canções. No Brasil, Raul Seixas compôs o Trem das Sete, já Adoniram Barbosa deu vida e voz ao Trem das Onze, o poeta pernambucano Ascenso Ferreira assim declara poeticamente: “Vou danado prá Catende / vou danado prá Catende / com vontade de chegar” o escritor Zé Lins do Rêgo não esqueceu de citar o trem de Guarabira em sua monumental obra Menino de Engenho.

Na Paraíba, o trem chegou ainda no período imperial, trazido por conveniências econômicas e políticas tendo a ação direta dos paraibanos Anizio Salatiel Carneiro da Cunha representante da província da Parahyba no parlamento imperial, e Diogo Velho Cavalcante da Cunha ministro por duas vezes no conservador parlamento, essas duas figuras gozavam de prestigio junto a corte do D. Pedro II e deste modo encomendaram o plano prospectivo da linha férrea ao engenheiro baiano André Rebouças.

Foi no período imperial que a empresa “Conde D’eu Raiway Company Limited” operando com capital inglês, assumiu o projeto inicial que partia da capital beneficiando as vilas de Alagoa Grande e Ingá, mas com a alteração sofrida no projeto original, a beneficiada seria a Vila da Independência, futura Guarabira, que a partir daí teria visível progresso. No dia 4 de junho de 1884, a atrasada e pequenina Vila da Independência amanhecia em clima de festa, pois seria inaugurado o seu primeiro trecho de linha férrea, o trem finalmente iria chegar trazendo esperança de dias melhores para os seus habitantes, esse fato histórico agora em 2015 completa 131 anos.

No dia da inauguração, presente esteve grandes autoridades como: o Dr. José Aires do Nascimento, ilustre presidente da província da Parahyba do Norte, J.P.H. Densmuve Superintendente da Companhia Férrea, Dr. Eugenio Toscano de Brito, Silvino Elvídio Carneiro da Cunha (“Barão do Abiaí”) Dr, Manoel da Fonseca, o vigário Walfredo Leal, Dr. Joaquim de Sá Benevides dentre outras autoridades.

Naquela inesquecível data, resfolegando e soltando fumaças pela ventas, chegava a estação assustando muita gente, a locomotiva Maroca sendo conduzida na ocasião com muito orgulho pelo maquinista mulunguense Chico Diabo. Por sua imperiosa presença, foi o trem que fez a pequenina vila torna-se cidade com o nome de Guarabira. Antes da chegado do trem em nossa cidade todos os produtos aqui comercializados, a exemplo da rapadura e da aguardente eram transportados por comboios de burros tendo a frente o tropeiro (almocreve), Areia Mamanguape, destacavam-se como dos dois centros comerciais do Brejo, a presença do trem asfixiou comercialmente essas duas cidades passando a hemogenia comercial a ser exercida por Guarabira. Entre a estação ferroviária e a antiga Rua do Boi Chôco fora erguida a velha ponte de madeira sendo essa conexão responsável pelo surgimento de vários casarões, e pontos comerciais destacando-se vários hotéis, cafés de pensões que davam abrigo aos que pernoitaram na cidade.

Era interessante se ver de perto o intenso burburinho em nossa velha estação do trem provocado pelo embarque e desembarque diário de centenas de passageiros em busca de diferentes destinos (Cachoeira, Guarabira, Araçá, Sapé, Cobé, Espírito Santo, Santa Rita, João Pessoa, Bananeiras, Itamatay, Pirpirituba, Nova Cruz) outros iam a Estação apenas pelo puro deleite de ver o trem chegar, era um costume muito comum por essa época áurea do transporte ferroviário. A proximidade da presença do trem era anunciada por longos e repetitivos apitos da Maria Fumaça, ao encosta-se na plataforma (espécie de calçada muito alta) os vendedores aventuram-se aos vagões de 2ª classe aos gritos: Olha a água doce! Olha a cocada! Olha a tapioca quentinha! Grupos de pessoas de diferentes classes sociais esperavam ansiosamente a chegada de parente e amigos observando cada vagão, os carregadores de mercadorias (chapeados) postavam suas carroças a espera dos comerciantes de toda a região.

Na estação de trem, tudo era feito às pressas sem se perder tempo seguindo como bem dizia: “o trem não espera por ninguém.”

Busco com esforço e encontro reminiscências da minha presença na velha estação, ainda recordo das bilheterias onde se adquiria as passagens em formato de pequenos cartões, da sala do telegrafista, vinha um ritmado som do telégrafo que nos deixavam intrigados por não saber decifrar o que dizia o código de Morse espécie de internet que fazia a comunicação entre as distantes estações.
A melhor hora sem dúvida era quando acomodava-nos nos toscos bancos de madeiras e escultava os solavancos vindos dos ranger dos ferros no engate de cada carro de trem avisando que ia partir. O cadenciado balanço do trem é algo indescritível, só os que viajaram possui o privilégio de dizer desta emoção, a visão de cada passagem vista através da janela de um trem nos faz lembrar de uma descrição poética dos retalhos de nossas vidas. Quem viajou de trem, não esquece a figura que trajava dólmã de brim azul e quepe da mesma cor com o alicate a picotar o ticket da passagem, era o fiscal do trem.
São essas imagens que ficam retidas na memória de muitos guarabirenses mas que não voltam mais. Vez por outra, vou visitar minha velha amiga e a encontro cada vez mais tristonha e solitária tendo apenas como companheiros o abandono e o silêncio da nossa omissão.

A nossa vetusta estação simboliza sem dúvidas o mais importante marco da fase áurea do nosso passado histórico, não podemos permitir o abandono e o desprezo pelo qual está passando, foi ela quem de nome, vida e glórias a Guarabira. Se fizesse-mos parte de uma sociedade menos egoísta, já teríamos feito um grande movimento para sua devida revitalização aposto que ela nos agradeceria. Pois ela bem merece.
“Quem vai chorar/ Quem vai sorrir/ Quem vai ficar/
Quem vai partir/ Pois o trem está chegando/
Está chegando a estação” O nosso trem esse já partiu, e nós ficamos a chorar pois sorrir já não podemos, ele se foi sim com destino a estação do imaginário de nossas lembranças.

Professor Vicente Barbosa