Fazendo domingos e medalhões
Domingo de sol e serra, de sair para passear com os de casa. Domingo próprio das boas conversas.
Dia, por exemplo, de ver os homens pássaros alçarem às alturas por redemoinhos invisíveis, empurrados para cima pelas boas correntes térmicas de ar que esbarram e sobem pela encosta da Serra da Jurema.
Eles, pilotando as suas leves e multicoloridas naves de tecido, manejadas através de eficientes cordões, verdadeiros cabrestos, que atendem precisos ao comando dos seus navegadores. Eu, a olhar para o infinito, fotógrafo das retinas e das lentes, tentando um olhar para além da exuberância da paisagem.
Paragliders, parapaint, asas delta. Foi-se o tempo em que o céu de Guarabira era apenas dos urubus e dos gaviões. Estes últimos, ganharam companhia e até sugerem aos visitantes o melhor lugar e hora para voar mais alto.
Dez ou quinze metros de pista gramada para a decolagem e a velha serra mostra mais uma de suas muitas vocações, contrapondo-se ao marco de atraso e fanatismo plantado ali, bem ao lado, em forma de estátua, adorada por um grupo cada vez menor dos que acreditam em outro céu, além daquele dos aeronautas, dos urubus e dos gaviões. A fé sincera e ingênua faz com que se conformem com o quase tudo que lhes falta e, generosos, ainda partilhem um dinheirinho minguado dos seus “aposentos” com vendedores de quinquilharias e às vezes com espertalhões e punguistas.
A gente fica se imaginando lá em cima, no mais alto possível daquele céu vertiginosamente azul e único. Como num passe de mágica, os novos Ícaros transformam-se em pequenos pontos coloridos no firmamento, ajudando a enfeitar o céu da cidade.
O dia também é de olhar o nosso ajuntamento urbano de cima, mas com os pés plugados no chão energético da Serra. Dá até para sentir o zumbido vindo da urbe, hesitante, cara a cara com mais uma encruzilhada. Um verdadeiro confronto com o dilema de fingir, novamente, que existem diferenças significativas entre os caminhos postos.
Em tempos como os de agora, preparemos os nossos ouvidos para o calo de palavras e expressões tais como progresso, futuro, desenvolvimento, emprego, renda, modernidade, educação, saúde, cultura, meu amado povo, eu até…., ôxe nêgo!, eu fiz, eu faço, eu vou fazer.
Neste caso o “nós” não aparece sequer como plural de modéstia e, se mesmo assim insistir em dar as caras, o faz majestático, do tipo “nós do bem”, afirmado com a entonação de quem empunha a bandeira do divino. Nada têm de santos. Pouco quase nada os credencia além do próprio desejo de perpetuarem-se “per secula seculorum”, como se a ocupação do espaço de poder fosse naturalmente privativa de alguns grupos, divididos por genética familiar. Desde o berçário já são tratados de deputados, senadores etc., sem o menor pudor, sem o menor senso do ridículo.
Na realidade são profissionais da política, na tentativa de tungar consciências em troca de migalhas e transformá-las em votos. Uma lógica enfadonha e pouco ousada que sugere a escolha dos menos ruins, critério subjetivo que abrange, no nosso caso concreto, desde o incompetente afável até o ditador gerencialmente melhor preparado. Acreditar na sinceridade do que afirmam é o mesmo que dar ouvidos às nossas crenças milagreiras.
Diante disso, o dia passa a ser também de torcida, não com relação às Olimpíadas, assunto sobre qual pouco entendo e só consegui gostar até agora, do espetáculo de abertura, do “fora Temer” explícito nas camisetas e da vaia entonada por milhares de vozes, dedicada ao Nosferatu usurpador.
Falo mesmo é de torcer pelo inédito viável, como propunha esperançoso o educador Paulo Freire. Que o tal inédito viável venha, indiferente de quem conduza a tocha ou, quem sabe, na pior das hipóteses, o bastão de revezamento. O importante é que venha, seja realmente inusitado, melhor intencionado e acima de tudo renovador de esperanças.
Sob o sol da serra e com o sal da terra, salgamos os laços telúricos, reafirmamos a nossa fé no futuro, enquanto abraçamos os mais próximos como quem os aninha. Melhor sensação não há, é energia vital, difícil de descrever com palavras. É corrente de fluxo contínuo que não se mede em escala voltaica.
Fazer domingos é também ousar em culinária simples, para fugir dos restaurantes lotados e barulhentos, onde a mesa nunca é litúrgica como em casa. Aproveitamos para testar as nossas habilidades e eficiência nesse particular. Ainda bem que em casa, o “nós” não é usado como plural de modéstia, mas com a força nuclear dos que se agrupam através dos laços afetivos e da convivência. Uns fazem a comida, outros botam a mesa, todos a tiram e a louça é irmamente lavada.
O prato servido? Simples como o céu para os urubus e gaviões. Uma massa grão duro, tirada “al dente”, regada com azeite e enfeitada com manjericão menino, daqueles que nascem e crescem em qualquer pé de parede do quintal. Culinária de pouca elaboração, mas de grandes e bons resultados.
Com rapidez, lá se vão para a panela quente e azeitada os medalhões de filé polvilhados de pimenta e sal. O tanto, é ao gosto do freguês. O tempo também ajuda a decidir o ponto. Uns serão tirados mal passados, apenas selados, conservando a suculência e o degradê vermelho róseo do interior da carne. Outros, ao ponto, contemplando assim todos os gostos.
Tomates cerejas banhadas em aceto balsâmico. Caseiro e rico molho de tomates. Cebolas refogadas em manteiga de garrafa. Suco honesto que vai ao fogo brando para rápida redução, isento de conservantes ou corantes.
Vinho tinto,
Vinho tonto,
Vinde “rojo”
Vinde D’ouro e/ou,
Alentejano
A mesa posta para cinco lugares, embora estejamos hoje em quatro. Todos sabem o quão são espaçosos os netos, principalmente quando “os” é apenas “um”, embora este “um” faça com que todo plural se torne pequeno. Ele que, ao invadir metros quadrados da mesa domingueira, ocupa sem resistência sesmarias de coração.
É por essas e outras que passei a gostar mais dos domingos, principalmente depois que me desassombrei das segundas feiras.
Alexandre Henriques é ensaísta.