O Deus que nos muda

As narrativas do nascimento de Jesus, encontradas nos evangelhos de Mateus e Lucas levam aos louvores e aos “glórias”, mas passam forçosamente pelo “ais” e pelas dores do sócio-político. Um bebê pobre paga um alto preço, simplesmente pelo fato de haver nascido. Um rei enlouquecido o persegue, seus pais fogem para o Egito, de onde eles voltam só quando Arquelau reinava no lugar de Herodes, seu pai. Para eles, o episódio do censo se prolongou por um mínimo de cinco a seis anos. Fácil é que não foi. Os evangelistas relembram a profecia de um velho sábio, Simeão, de que o menino suscitaria a contradição. Já adulto Jesus confirmaria que não veio passar chantili no bolo da vida. Veio exigir tomada de posição dos seus seguidores. Querer o bercinho de palha, rodeado de animais com pastores e reis magos adorando-o, e não querer meditar na cruz é não entender o Natal. A mensagem daquele nascimento não ensina apenas a orar pela paz da humanidade. Ensina a repensá-la, busca-la e a perguntar aos sistemas e governos do mundo o que farão pelos seus pobres e pelos pobres dos outros. Se preciso, ensina a sentar na grama do parlamento para que se vote em favor do pobre.

A narrativa do primeiro Natal, a princípio parece idílica e bucólica: noite estrelada, estrela guia, animais a aquecer o bebê, a mãe pobre que o envolve em panos… Tal idéia gerou milhares de poemas e milhares de canções e até presépios com neve a 40 graus de calor. Repensada, ela fala de sofrimento de gente pobre e de luta para sobreviver. Simplesmente, alguns bebês não são bem vindos ao mundo. A nossa é uma era pró aborto e anti-natalina.

Há quem diga que não foi nada disso! Que aquelas narrativas são apenas simbólicas. Jesus teria nascido em berço tranqüilo e sem nenhum sofrimento… Como nem eu nem você estivemos lá para dizer se foi ou não foi daquele jeito, não podemos exagerar, nem para um lado e nem para o outro. O que os evangelistas quiseram dizer é bem claro: Deus mandou o seu ungido que foi rejeitado do berço até à cruz. Gostariam de um messias calado, que ajudasse a dar ibope e que cooperasse com os donos da mídia e do poder daquele tempo, dizendo coisas lindas e emocionantes. Mas ele resolveu falar. Por isso ao lado do berço de palhas, as igrejas colocam cruzes e ao invés do menino no berço as lojas mostram o Papai Noel!…Ele pelo menos nunca fala de política! Pensando bem, o Natal é isso. Provoca! A noite é feliz, mas carrega oi projeto da mudança. Os poderosos continuam preferindo o Deus mudo ao Deus que nos muda!…