‘O leitor que eu sou’, por Alexandre Henriques de Lucena
A generosidade do poeta Sergio de Castro Pinto fez chegar a mim, sem demanda de qualquer esforço da minha parte, o seu mais recente livro, O leitor que eu sou.
Mais uma vez o carteiro e o poeta, ao que tudo indica em conluio, me fazem esta agradável surpresa. Quanto ao carteiro eu explico, já que o poeta prescinde de apresentações. Tenho com o carteiro um trato tão gentil e amigável (coisas do interior) que na maioria das vezes o recebo pessoalmente. Ele, habituado com as encomendas e com as minhas reações ao recebê-las, às vezes, antes de abrir o baú que traz preso ao bagageiro da moto, cria uma certa expectativa — nem se anime, hoje eu só trouxe contas. Nada de livros ou pacotes. Só contas — e, com um sorriso maroto, acrescenta — a pagar.
No caso de hoje, o carteiro fez cara de dúvida enquanto remexia várias vezes o fundo do baú e, finalmente — ah, achei ! Um livro — Ele aprendeu a ler minhas reações e a tirar proveito delas. Dentre os luxos que possuo na vida, um deles é o de poder dispor dos serviços de um carteiro desse nível, de carne e osso, cortês. Dependo das entregas por fazer, até proseador, destoando do perfil comum dos carteiros da atualidade, sempre assoberbados, nunca por culpa deles. Os Correios, velhacos como nunca nos prazos, alvo de punguistas e corruptos, distanciam-se a cada dia que passa das suas origens apenas missivistas, do glamour e charme do postalismo francês. Ser atendido por um carteiro assim, no meu caso, é luxo para poucos. Coloco na conta de privilégio, de bem imaterial.
Vou sair para a caminhada que faço todos os dias, mas não sem antes dizer um pouco do leitor que também sou, começando por registrar a beleza inspiradora da capa do livro. Talvez esteja diante de uma leitura, como diz Leandro Karnal, que pode começar com uma xícara de café e muito bem terminar com uma taça de vinho, luxuoso auxílio à poligastria literária.
Como uma coisa puxa a outra, antes de articular este agradecimento, viajei no tempo para a Santa Terezinha da minha infância, na Guarabira da juventude do poeta Sérgio, que ora me presenteia com o seu mais novo livro. Voltei no tempo ao dadivoso quintal da casa dos meus avós, um latifúndio urbano desses que não existem mais, com muitas mangueiras, goiabeiras, chiqueiros de galinha e tudo mais que os bons quitais possuíam à época.
Recebi de presente da minha avó, simbolicamente, uma das goiabeiras ali plantadas. Uma dádiva, mas também um ônus que implicava rega, adubação e colheita. Passei a aplicar os tratos culturais (esterco de curral e água) com tal constância e zelo que quase matei a goiabeira. Senhor da minha propriedade, não queria dividir com os sanhaçus e canários do chão o fruto do meu trabalho. Muito menos com as astutas moscas que deixavam os seus ovos nas goiabas ainda de vez, logo transformados em larvas, cujas habilidades contorcionistas se assemelhavam a de alguns circenses.
Ficar velho não implica necessariamente ficar sábio, como no caso do rei Lear, mas a minha avô sabia o porquê da goiabeira ser o presente ideal para um menino do meu tamanho. A altura da árvore, o diâmetro e a textura do caule, tudo devidamente apropriado para a aventura simiesca de consumir a fruta no topo da árvore.
Para manter íntegros os frutos da goiabeira, ela me ensinou a vesti-los em pequenos sacos de papel, evitando a concorrência de moscas, sanhaçus e canários do chão. Uns dois anos depois, recebi a guarda do pé de sapoti, muito mais alto e de caule bastante abrasivo. Foi quase que um ritual de passagem.
Hoje me dou conta que só avós entendem como tudo isso funciona.
Acabei de colocar seu livro em um saco de papel no topo da goiabeira que ainda povoa meu imaginário. Após a caminhada, o consumirei no galho mais alto da árvore, com o gosto das goiabas maduras da minha infância. Este é o leitor que sou. Muito obrigado amigo Sérgio.
Alexandre Henriques é ensaísta.