O poeta e o carteiro

Falem-me de Augusto dos Anjos! Com este pedido, ancorado no balcão do bar de Dona Dalva, das bodegas de Vila ou Zé Gouveia, seus locais preferidos para a bebericagem de fim de expediente, o carteiro Ivanoé manifestava o seu desejo de poesia e de poeta. Tinha que ser Augusto, o poeta do EU. Isso acontecia depois da quinta ou sexta lapada da cachaça brejeira de João de Abílio, sequenciada pelo limpar de beiços com as costas da mão.

Feito o veemente apelo e ninguém se manifestasse diante da sua convocação, não dava outra: imbecis, ignorantes, analfabetos, falem-me de Augusto dos Anjos, suplicava o estafeta, sempre de frente para o balcão e de costas para os outros fregueses. Suponho que tal estratégia visava, sobretudo, não abrir exceção quanto a destinação dos impropérios no caso da presença de um amigo ou uma autoridade.

Feliz de quem pudesse sacar da memória um poema, uma estrofe, um verso que fosse da lavra do soturno poeta. Ivanoé ia ao delírio. Aplaudia e até abraçava quem atendesse à sua exigência nos termos proposto, os seja, recitasse a poesia do poeta Augusto.

O entregador de correspondências já era, mesmo sem saber, carteiro e poeta, tanto pela invocação augustiniana quanto pelo seu perfil humano. Ao puxar o carteiro Ivanoé pelo fio da lembrança, quase o vejo cruzando a cidade de ponta a ponta, em uma das bicicletas Merk Suisse dos Correios, daquelas pretas, de paralamas ornados com finas listras douradas, com porta corrente fechado e de cromados reluzentes. Quem já viu uma dessas saberá do que estou falando.

A cena, por sua vez, nos leva a um link imediato com filme baseado no romance homônimo de Antônio Skármeta - O Carteiro e o Poeta. A película (gosto desse nome) de acentuado lirismo, transborda poesia e humanidade. Dirigida por Michael Radford, fala da amizade de Pablo Neruda (exilado político em uma pequena ilha italiana) com o carteiro que lhe entregava as correspondências vindas do Chile conflagrado e de outros lugares do mundo. Um filme obrigatório.

Ivanoé, por sua vez, sabia de cor a maioria dos poemas do ‘EU’, embora não os recitasse, limitando-se a corrigir as falhas de quem cometesse algum deslize durante a declamação. Preferia que outros o fizessem e ele apenas ouvisse, sorvesse os versos como quem se embriaga de poesia e de cachaça ao mesmo tempo.

Em algumas ocasiões, não resisti e resolvi me antecipar. Antes mesmo da convocação já o cumprimentava dizendo coisas do tipo: … a simbiose das coisas me equilibra, em minha ignota mónada ampla vibra…” ou “… Que ventre produziu tão feio parto?!/A consciência humana é este morcego!/ Por mais que a gente faça ele entra/ Imperceptivelmente em nosso quarto.”

Certa vez fui sacolejado pelos ombros, porque consegui recitar de pé a ponta o célebre “Debaixo do Tamarindo”.

Em outra ocasião, já passando do final do expediente dos Correios, avistei Ivanoé vindo das bandas da rua da Rodagem, lado a lado com Merk Suisse, um servindo de escora para o outro, cambaleante e silente, porém com o rosto ainda banhado em lágrimas. À tiracolo sua bolsa lona, gorda de correspondências, não dava sinais de um dia produtivo, pelo menos para os Correios. O carteiro exalava a brejeira de João de Abílio por todos os poros. Não havia bodega na rua da Barra que não tivesse entrado (e não eram poucas). Estranhamente não pediu que recitassem Augusto dos Anjos, apenas chorou em todas elas, sem palavras.

Diante da cena, ocorreu-me a lembrança de um trecho de Homus Infimus, do poeta da predileção do carteiro …”Deixa a tua alegria aos seres brutos/
Porque, na superfície do planeta/
Tu só tens um direito: - o de chorar.” Acompanhei Ivanoé em seu silêncio. Deixei o trecho do poema para outra ocasião.

Soube, algum tempo depois, que após entregar uma carta em uma das casas do final rua Rodagem, os moradores pediram para que fosse lida pelo carteiro, já que ninguém da casa sabia ler. Nada que estivesse fora do mister do experiente estafeta, não fosse o velório que se encontrava em curso. A única pessoa que poderia decodificar a mensagem vinda do Rio de Janeiro, mesmo que precariamente, estava dentro do caixão. Ao redor do caixão, uma ninhada de filhos, de tamanho para todos os gostos. Ivanoé abriu a missiva, cuja remetente era a filha mais velha da falecida.

Dentro do envelope uma certa quantia em dinheiro, destinada à mãe, envolta em papel carbono, como era de praxe. Na carta, uma recomendação para que o dinheiro fosse usado, se possível, na compra de livros escolares e cadernos para seus irmãos.. No mais, noticias dando conta de que que estava bem saúde, trabalhando como empregada doméstica. Finalizando, que mandaria, sempre que pudesse, mais um dinheirinho com a mesma finalidade.

Os Correios, na atualidade, prestam-se, inclusive, para remessa de cartas e telegramas que, na maioria das vezes, são entregues fora do prazo, causando prejuízos e aborrecimentos, principalmente quando se trata de contas a pagar. Os novos estafetas, se avaliados apenas pela aparência, não indicam gostar de poesia, ou sequer ter tempo para apreciá-las.

Ivanoé desapareceu lentamente da cena guarabirense, como quem toma silenciosamente um rumo e vai se distanciando. É como tivesse saído a pedalar a Merk Suisse até se perder ou ser perdido de vista.

Alexandre Henriques