Pablo do Arrocha assume que é o rei da sofrência: “Nunca vou gravar uma música com final feliz”

Pablo faz um som conhecido como arrocha, que nada mais é que uma atualização da seresta. Natural da cidade de Candeias, na Bahia, o cantor soma 15 anos de carreira. Mas foi só em 2014, com o estouro da músicaPorque Homem Não Chora que ele passou a ser conhecido em nível nacional e popularizou o termo “sofrência”, que agora serve também para rotular o estilo do cantor.

O sucesso atingido pelo músico impressiona. Em pouco menos de um ano, o hit que conta a história de um homem abandonado pela companheira começou a tocar sem parar nas rádios, jukebox de botecos e carros equipados com som potente, comuns nos subúrbios dos grandes centros urbanos.

Na internet, vídeos de homens chorando ao ouvir a música mais conhecida de Pablo logo viraram uma febre. E, claro, também provam que homens derrubam lágrimas, sim. E muitas. Ainda mais após ouvir o som emotivo e romântico de Pablo. Em entrevista, o cantor comenta esse sucesso repentino, confessa que já chorou por amor, mas diz que evita as próprias músicas quando discute com a mulher.

Imprensa — Pablo, tem medo de ficar conhecido como artista de um sucesso só?

Pablo — Não. Em 2013, o Gusttavo Lima regravou uma música minha, Fui Fiel. A música já era muito bem tocada em algumas regiões do país. Fiz vários programas de TV com essa música. Em 2014, lancei o meu disco É Só Dizer Que Sim, e a música Vingança do Amor, em parceria com Ivete. Essa também ficou entre as mais bem executadas. Aí veio o lançamento de Por Que Homem Não Chora, e todo esses vídeos de sofrência, que bombaram.

Imprensa — Explique como surgiu o termo arrocha?

Pablo — O arrocha surgiu de uma expressão que eu falava nos meus shows. A música que toco, na verdade, é uma seresta. Arrocha surgiu para os casais dançarem agarradinhos, “arrochadinhos”. A partir de então, o pessoal não falava mais que ia para a seresta, e sim para o arrocha.

Imprensa — Além de surgir esse termo, agora chamam seu estilo de “sofrência”. Foi você que inventou a palavra?

Pablo — Eu costumo dizer que o público é o maior responsável pelas criações. A sofrência é uma delas. Na verdade, o termo sofrência é do humorista Fabinho. A minha música só colaborou. Para mim, é um grande presente essas demonstrações populares de carinho. Fico muito feliz.

Imprensa — Como você encara as brincadeiras na internet e os vídeos ironizando a “sofrência” das músicas de Pablo?

Pablo — Me divirto muito. Tem alguns vídeos que eu compartilho em minhas redes sociais. Eu adoro. Acho divertidíssimo e admiro a criatividade do povo.

Imprensa — Pablo, você já sofreu por amor ou as letras que canta não refletem sua vida pessoal?

Pablo — Quem nunca sofreu por amor, né? Eu procuro pegar letras que falem exatamente isso. O amor vivido de verdade pelas pessoas. Quero que peguem a letra e mandem pro namorado, pro marido, pro amante. Que liguem pro amado na hora do show. Que fiquem em casa escutando e sentindo a dor do amor ou a lembrança daquela paixão que te fez sofrer.

Imprensa — Você diz que homem não chora. E você, já chorou por amor?

Pablo — É claro que homem chora. Não existe um homem que nunca tenha sofrido por amor, e não tenha chorado tomando aquela cerveja, enquanto escuta a música do Pablo.

Imprensa — Quando você ficou conhecido no Brasil todo, foi um choque? Esperava que um som regional como o seu tivesse tanta aceitação pelo país?

Pablo — Eu encaro isso como o resultado de um bom trabalho. Estamos colhendo os frutos dessa batalha. São 15 anos de carreira. O arrocha é um gênero genuinamente brasileiro. Não só do Nordeste. Eu tenho o maior orgulho de ser nordestino, e de ver que o arrocha, o axé e outros grandes gêneros nasceram lá. Mas o arrocha hoje é do mundo.

Imprensa — Como você encara o fato de ser um sucesso no Carnaval mesmo tocando músicas tristes?

Pablo — É engraçado isso. Eu puxo bloco em Salvador já tem uns três anos. É uma multidão de pessoas cantando arrocha. E eu não canto outra música além do arrocha. As pessoas abraçaram o ritmo de um jeito muito especial. Vou torcer pela minha música estourar esse ano, é claro.

Imprensa — Aqui em São Paulo, seu estilo é conhecido como brega. Você acha o termo pejorativo ou não se importa?

Pablo — Não. O arrocha vem do brega. É um brega romântico, com inspiração em Waldick Soriano e Reginaldo Rossi.

Imprensa — No sudeste, o arrocha começou a ficar conhecido com artistas sertanejos que fizeram versões do ritmo, como Gusttavo Lima e Luan Santana. Você vê algum tipo de problema com essa apropriação?

Pablo — O arrocha que o sertanejo faz é totalmente diferente do arrocha que eu canto. Eles fazem um arrocha com batidão, algo bem para balada. Eu faço arrocha romântico. O autêntico arrocha nascido em Candeias, na Bahia.

Imprensa — Você sempre diz ser fã de sertanejo. O que curte no estilo?

Pablo — Eu amo modões. Cresci ouvindo modas de viola. Zezé Di Camargo e Luciano, Daniel, Leandro e Leonardo. Sou fã.

Imprensa — O arrocha vai ser o substituto do axé na música baiana?

Pablo — A música brasileira tem várias vertentes. Nada acaba com nada. O arrocha vem da mesma raiz do axé, e por serem gêneros que nasceram na Bahia, sempre vão andar lado a lado. O axé continua firme e forte, com diversos amigos que ganham o país e o mundo, como Claudinha e Ivete.

Imprensa — Com o sucesso que você tem feito e a grana que ganhou, ainda dá para sofrer com alguma coisa?

Pablo — O sucesso e o dinheiro são consequências. Quero continuar levando minha música para os quatro cantos do Brasil. Levar essa sofrência pro público mais um tiquinho.

Imprensa — Você acha que seus fãs choram por causa das suas letras ou por estar diante do ídolo Pablo nos shows?

Pablo — Com certeza por conta das letras. Eles vão para sofrer e chorar por amor.

Imprensa — Você se considera representante da tradicional escola de cantores românticos brasileiros, como Amado Batista e Reginaldo Rossi?

Pablo — Sim. Sem dúvidas. Tenho muito orgulho disso. Eles são referência quando se fala em música brega, música romântica.

Imprensa — Qual sua letra mais sofrida?

Pablo — Eu tenho um carinho muito especial por várias. Cada uma tem um momento de “sofrência”. Mas eu acho que A casa ao Lado e Por que homem não chora são bem tristes.

Imprensa — Um dia Pablo pode cantar músicas com final feliz?

Pablo — Não. As músicas têm que ter uma sofrência, né? Nunca vou gravar música com final feliz.

Imprensa — Pablo, você é casado. Quando briga com a mulher, ouve tuas músicas para afogar as mágoas?

Pablo — De jeito nenhum. Quando a gente briga, eu não quero nem saber de me ouvir.

Imprensa — Como é o assédio das fãs? Elas atacam querendo fazer bilu bilu (nome do novo sucesso do cantor)?

Pablo — Muitas pedem, mesmo.

Imprensa — Pablo, dizem que homem não chora. Mas quando vê suas fotos antigas, antes de dar aquele tapa no visual, você já teve vontade de chorar?

Pablo — Não. Sou grato em saber que tenho melhorado a cada dia. Eu me importo em estar bem comigo mesmo, sou vaidoso, mas não ligo muito para roupa. Fico feliz em saber que o tempo foi bem generoso comigo.

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