Seremos todos Cunha?
É certo, habemus Cunha, mais do que nunca. Ele deixa, ao que tudo indica, de forma previamente acertada com os comandos golpistas internos, além de alguns outros de fora do País, o protagonismo da cena, para se esconder na treva onde foi gerado. Deixa Temer em seu lugar já que é um dos seus comandados. Temer fará tudo para honrar os acertos, inclusive o de fingir distância de Cunha. Das trevas o ex-presidente da Câmara passa a comandar todo o retrocesso, manipulando dos bastidores, dando ordens a todos os que morderam sua maçã podre e têm hoje dificuldade de esconder seus escamosos e gordos rabos.
Farão tudo que Cunha disser. Farão tudo que Cunha quiser, do lugar onde ele estiver, até preso, se chegar a ser. É visível o constrangimento de uma grande parcela dos parlamentares, amarelados pela vergonha, quando tentam o esboço público de um sentimento de respeito pela democracia. Mesmo atuando em favor do golpe, muitos deles, afirmam que não gostariam de estar ali naquele momento.
É óbvio que ninguém gostaria de estar fazendo papel tão moralmente degradante, quanto mais os que estão submissos à uma vontade que vem de fora das duas casas legislativas e não emana do povo. Parlamentares ameaçados e chantageados, proclamam agir dentro dos ditames da lei e a olhos vistos são desmascarados.
A grande maioria dos comandados de Cunha, ao invés de fazer história, a destroem. Ao invés de colocar os interesses do País em primeiro plano, cedem às chantagens do demoníaco Cunha, que parece usar as tripas dos poderes da república como rédeas em suas mãos. É como se, em um movimento brusco, num acesso de cólera, ele pudesse arrancá-las, colocando-as às vistas de toda a nação. Vísceras expostas ao calor desinfetante das luzes, provocaria a morte de vermes e bactérias que habitam o apodrecido tecido das nossa instituições. Seria, sem dúvida, maior delação da história da república, não premiada, mas sim um prêmio para toda a nação. Ao que parece o plano de Cunha não é este, ainda.
Nada construído usando em seus alicerces material em tão avançado estado de decomposição, pode se sustentar de pé por muito tempo.
O Brasil dos indignados é bem maior do que o dos usurpadores. Já há reação e desejo de luta. Como sempre, os “insurretos” serão chamados de baderneiros, desordeiros, impatrióticos e ameaçadores da tranquilidade pública. Esse filme é conhecido por todos, não só no Brasil como na nossa América. O argumento seduz, de pronto, àqueles que não mais conseguem se impor pela autoridade, faltando-lhes para isso moral e exemplo. Incomodados pelas próprias consciências, se deixam seduzir pelo uso da força, em nome de uma ordem quebrada por eles próprios, ao provocarem a ruptura do maior dos contratos vigentes, ou seja, a Constituição Federal.
Quem não se dá ao respeito, não pode exigi-lo de ninguém. Como se conformar com a decisão de tirar da cena política a única pessoa sobre a qual não foi conseguido, até agora, apesar de um esforço hercúleo durante quase dois anos, uma prova sequer sobre prática de crime, e a condenam na dúvida.
Em um arranjo apoiado pelos grandes grupos midiáticos, conhecidos pelos papéis lesivos ao povo brasileiro que desempenharam em outras oportunidades, como em 1964 e em todos os outros anos que sucederam aquela quartelada. Chegaram, inclusive, a pedir desculpas públicas, recentemente, pelo mal reconhecidamente praticado, enquanto já urdiam o novo golpe, como no caso da rede Globo. Estes são os mesmos que tentam empurrar de goela abaixo do povo, o torpe desrespeito às regras do jogo. Fugindo ao limites das imputações, cria-se uma novidade jurídica que não consta em nenhum dos nossos códigos e sequer da mal-amanhada denúncia. O chamado “conjunto da obra”. A cada avanço do processo de impeachment apresentadores da Globo riem, debocham, dão pulinhos e comemoram no ar o que consideram o coroamento dos seus esforços em distorcer a realidade.
Que respeito pode inspirar uma decisão tomada por julgadores que, na sua grande maioria, de forma comprovada, está envolvida no mais recente assalto ao erário, e em muitos outros perpetrados ao longo de suas carreiras políticas. Grande parte deles figura nas listas de propinas de construtoras, como no caso de Cássio Cunha Lima, dentre muitos. O mesmo Cássio, que já ostenta em seu currículo uma cassação de mandato. Como se não bastasse, o paraibano golpista levanta a voz em seu discurso lustroso, com uma arrogância vernacular e uma afetação imprópria dos honestos.
A partir do afastamento da presidente do cargo para o qual foi eleita, emergirá um novo Brasil. Não um Brasil pertencente aos da Avenida Paulista, o chamado coração financeiro do País, paraíso de agiotas que nunca produziram riquezas, que e vivem de juros. Não será também um Brasil embalado por cíclicos batedores de panelas que historicamente nunca as tiveram vazias.
Ouviremos um Brasil dos morros, favelas e periferias. Ouviremos um Brasil urbano e rural. Ouviremos o som ensurdecedor de tambores, chocalhos, alfaias e guisos que há de ultrapassar as nossas fronteiras. Ouviremos o barulho de um Brasil que quer, deseja e tem a capacidade de lutar por avanços e não mais admite retrocessos. Ouviremos de forma mais intensa ainda do que agora artistas, intelectuais, escritores, e as mais vivas forças da nação.
Não somos território descolado do continente, não somos continente apartado do mundo. Há um contexto internacional que nos observa atento e que também é manifestamente contrário ao golpe.
Se nada acontecer, em pouco tempo, seremos todos Cunha.
Alexandre Henriques é jornalista e ensaísta.