Vovô viu a urna

Com a mesma intimidade com que os historiadores e arqueólogos tratam os séculos, posso dizer que o meu avô paterno nasceu no “dezenove”, isto se usada a regra de contagem do tempo histórico. Na realidade ele nasceu mesmo na era de 1887. Tinha menos de um ano quando foi abolida a escravatura no Brasil e um pouco mais de dois anos quando foi proclamada a república.

Com ele poderia ter convivido até um pouco mais, uma vez que alcançou a marca invejável dos 96 anos, ainda lúcido e senhor de si até perto da morte. Tal regalia coube aos meus tios e primos, que permaneceram na Serra do Cuité da minha nascença, já que muito cedo vim dar com os costados no Morgado de Costa Beiriz. Mas aí já são outros quinhentos que não pretendo gastar agora.

A distância não impediu que eu soubesse do meu avô, seja em viagens para visitá-lo, esporadicamente, seja através das histórias contadas pelo meu pai e por outros parentes. Com maior isenção e equidistância, pelo depoimento da minha mãe. Tanto ela como meu avô paterno, coincidentemente, sempre foram muito econômicos e cuidadosos no trato com os seus haveres e, mais ainda, com relação a elogios fáceis, principalmente, quando recheados de adjetivos laudatórios, sem nunca serem, nos dois aspectos, sovinas ou mesquinhos, apenas comedidos.

Minha mãe nunca escondeu admiração que tinha pelo sogro, estranhando no entanto o seu jeitão árido e direto, que não distinguia, na forma de tratar, gênero, condição social, econômica, parentesco, cargo ou patente, embora respeitoso com todos e de reconhecida justeza e retidão, tanto na opinião dela como na de outros parentes. Da mesma forma, depõem muitos dos que conviveram com ele comunitariamente, de forma mais efetiva e prolongada.

Conta minha mãe que certa vez, seu Zome, como ela e quase todos o tratavam (apesar de se chamar Amálio), frequentador pouco assíduo da Igreja, foi convidado para um encontro com o Bispo, numa das visitas pastorais à Serra. Recebendo os cumprimentos, Vossa Reverendíssima estendeu a mão a Zome Limeira na altura do rosto do cumprimentando, para que tivesse beijado o seu anel, signo do destacado posto exercido na hierarquia da santa madre. O gesto já havia sido repetido várias vezes por boa parte dos presentes ao encontro. Num movimento rápido e sem palavras, o meu avô colocou a mão do bispo de volta, dando-lhe apenas o tradicional e cultural aperto. Ao sair, comentou com a minha mãe e outros familiares, do jeito telegráfico e aforístico que lhe era peculiar — um homem não foi feito para beijar a mão de outro.

No ano em que eu nasci o meu avô, que já contava com 70 anos de vida, tirou seu último título eleitoral. Fico imaginando de quantas eleições chegou a participar como votante. Como teria sido o seu primeiro encontro com as urnas, que nem eram urnas no começo, mas os constrangedores livros colocados sobre duas mesas, próximas uma da outra, comumente no adro das Igrejas. Naquele lugar, diante de todos, o eleitor era obrigado a escolher um dos quase sempre dois coronéis postos, presentes ao lado de cada mesa. O autor do sufrágio, depois de assinar um dos livros, passava imediata e inevitavelmente para a cota de desagrado do coronel preterido na escolha.

Dos livros evoluímos para os caixotes de madeira, com tampa de dobradiças, aldraba e cadeado, além de uma fenda na parte superior para a inserção do voto dobrado em segredo, dentro de uma cabine geralmente improvisada.

Vieram as urnas padronizadas, em forma de sacos de lona, de cor muito semelhante à das mortalhas e no mesmo tom da batina dos capuchinhos. Supostamente mais práticas e seguras, não deixaram de ser alvo da fraude eleitoral que, ao que parece, deve ter a mesma idade das eleições e continuam quase siamesas, até na sofisticação alcançada com o passar do tempo.

De tantos atentados à lisura dos pleitos, o Brasil foi se transformando, ao longo dos anos, num país especialista em segurança eleitoral, seja na tecnologia para a coleta do voto, utilizando, inclusive, a identificação biométrica do eleitor, seja no processamento da apuração, toda feita de forma eletrônica, sem contar com a rapidez na divulgação dos resultados.

Tal agilidade já chegou a fazer inveja até aos americanos, deixando o país da tecnologia, de Bill Gates e de Steve Jobs, de calças curtas em termos de modernidade e eficiência, mas só nesse particular. Porém, de nada adianta tanta ciência gasta para colher, contar os votos e divulgar os resultados se, em muitos e no maior dos recentes casos, não aprendemos ainda a respeitar a vontade das urnas.

No tocante a democracia os americanos ganham do Brasil de barbada. Que fique claro, é obvio, que isto se dá só com relação a democracia interna, aquela lá deles, cantada em verso e prosa por riquinhos de classe média alta e outros tipos abjetos de neo liberais, neo oportunistas, enfim, neo colonizados brasileiros.

Com relação a “nosotros” sequer a soberania temos respeitada pelo Tio Sam, quanto mais a democracia, esse rebento nascido da luta do povo e ameaçado permanentemente por sanguessugas, carrapatos e outros hematófagos endêmicos do território político dominado por uma elite que se arvora, hipócrita e arrogantemente, desembarcar as pressas do barco que ajudaram a afundar, ao roerem seu casco à exaustão, até perfurá-lo.

Agora, acomodados precariamente nos barcos salva vidas da ilegitimidade, pretendem, a todo custo, deixar para o restante da tripulação, da qual fizeram parte o tempo inteiro, toda culpa pelos mal feitos inerentes e seculares da política brasileira. Para isso contam com o apoio de uma mídia cada vez mais ativa e escancaradamente parcial, corrompida e não menos abjeta.

Tais roedores também encontram guarida à sombra, sob o farfalhar de algumas togas retrógradas e justiceiras. Ao fazerem de conta que estão aplicando os rigores da lei, agem como se a cadeia fosse feita apenas para um agrupamento político e não para todos os corruptos, de todos os partidos, de todos os lados, das aldeias à corte, enfim, para os criminosos de um modo geral. Deixam de fora do cárcere e de posse do queijo roubado o maior dos ratos de porão, que atua sim, como uma verdadeira cunha de sustentação dessa construção imoral, para que ela não caia sobre suas próprias cabeças.

Aqui mesmo em nossa província, um neto da aldeia, também cunha e de quebra lima, desenvolto e falante guabiru, usou a sua lima loquaz na falsidade, enfadonha e torpe no conteúdo, para desgastar a nossa incipiente democracia.

Para sua pouca sorte terá que arcar hoje e até o final dos seus dias, com as vaias em sua terra natal e os gritos de golpista em nossa aldeia e por onde passar. Seu pai, se vivo fosse, com melhores qualidades políticas e morais, certamente se sentiria envergonhado pelo filho e pelo neto.

Não seria muito sonhar, às portas que estamos de mais uma eleição municipal, com o efeito desinfetante, oxigenador e depurativo que poderia nascer do pleito de agora.

Munidos apenas das impressões digitais, aproveitaríamos para banir da vida pública dos municípios, os velhos e os novos coronéis. Ou seja, todos aqueles que, dentre muitas outras vilezas, posaram sorridentes, cordatos, satisfeitos e até debochados, com Cunha e Cunhas Limas, sabe-se lá em que banquetes, sabe-se lá por quem bancados.

Se como meu avô o eleitor de hoje se recusar a beijar por correspondência os anéis de alguns bispos neo pentencostais ou a dos seus representantes na política local, que escolha os candidatos usando como critério o da preferência por aqueles que não traíram a democracia, por aqueles que levantaram a voz contra a quebra do nosso frágil e cambaleante estado de direito.

Se mesmo assim restar dúvida, lembrem que desde o tempo dos toscos caixotes de madeira, que sucederam os famigerados livros de coleta de votos até as urnas eletrônicas da atualidade, estão contempladas as opções branco e nulo.

Assim, na impossibilidade de mudar o estabelecimento político por completo, que seria o ideal, temos em nossas mãos a capacidade e o empoderamento necessários para passar um bom recado, minando de forma sistemática a legitimidade dos bem votados porém maus eleitos.

Alexandre Henriques e cronista e ensaísta.

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