Por Raíssa Victória

Lembro com orgulho que os meus natais e as festas de fim de ano eram comemorações de uma típica criança dos anos 90, simples, mas inexplicavelmente mágicos.

Tinha parque de diversões na pracinha, alfenim em formato de cavalinhos, bonequinhos e rosas dentro das malas de couro, pão Recife temperado com erva doce e alecrim vendidos nos bancos de feira, sorvete colorido de máquina que tinha um gosto delicioso de pasta de dente Tang, siri salgado vendido no balde, cadeira de balanço na calçada, girândola e banda marcial tocando a alvorada.

Meu quarto, na infância, na casa de Serra da Raiz, era o primeiro…as janelas de madeira maciça davam para a varanda e o barulho dos fogos e da banda que tocava a alvorada me assustavam e me faziam acordar, mas ao mesmo tempo marcavam para sempre a minha memória com os dobrados bonitos anunciando o novo ano. Lembro com ternura e saudades que quando eu pensava em acordar com o barulhão, já sentia a mão quente de Dona Neusa (minha avó materna) a me balançar e acalentar, são memórias que jamais serão esquecidas.

Final de ano também era tempo de visitar os parentes e receber um agrado dado com a mão quase fechada para manter a discrição e o “segredo”, quase como se estivesse a cometer um crime e depois sair contente para comprar um ingresso para o bate bate ou uma mola maluca colorida nas barraquinhas. Quem lembra?

Quando o calendário batia 31/12, eu já via o pavilhão sendo armado para receber muita gente e muita comida. Ouvia o dia todo o barulho dos ferros do palco da banda sendo montado na praça e as moças passando na rua com o cabelo “frisado”, sinalizando os preparativos para a noite de festa.

Depois da alvorada, de ouvir os barulhos da montagem dos palcos, de ver as meninas passando para lá e para cá entre cuidados clínicos o cabelo e comuna maquiagem, e de ouvir a girândola estrondar os ares da minha terra, ouvia ao longe alguém dizer assim: “melhor levar ela no colo pra cama. A bichinha não aguentou nem comer, vou só trocar o vestido e botar um “mimisolinho”.

É, lá estava eu mais um ano dormindo antes da ceia e sendo levada no colo para a cama para sentir mais uma vez uma mão quentinha me balançar no momento do susto e ouvindo baixinho o sussurro “durma, tô aqui”.

Natais e finais de ano são mais, mas muitos mais do que compras de panetones e queijos do reino, muito mais do que troca de lembrancinhas nos amigos secretos. São memórias guardadas lá no fundinho de nossa alma e que desabrocham a cada novo 24/12 e 31/12 marcados no calendário de folhinha.

A terminação 20-20 que completa a numerologia da data na íntegra(24/12/2020) trouxe para o planeta um desejo inusitado de natal e um pedido especial na cartinha ao bom velhinho:

“Noel, além do pão recife, do chester, do sorvete de pasta de dente, da alvorada atravessando o silêncio de todos os anos…dá um jeitinho de encaixar a vacina no pacote, bom velhinho. O mundo anseia por dias melhores.”

 
Raíssa Victória é advogada com atuação no brejo paraibano.