Em meio às araucárias paranaenses, um grupo de 73 afegãos viveu na noite do dia 24 um Natal muito diferente dos anteriores. São quase todos cristãos, mas essa foi a primeira vez que eles puderam celebrar a data abertamente, com ceia coletiva, música e oração.

Perseguidos por não serem da religião predominante no Afeganistão — o islamismo —, eles fugiram dos fundamentalistas do Talibã e agora estão nos arredores de Curitiba, no limite entre as cidades de Colombo e Almirante Tamandaré, a 25 quilômetros da capital.

“Foi tão especial… Estávamos entre amigos, comemos, cantamos, oramos juntos”, diz a advogada Golsoon, 33 [os sobrenomes dos entrevistados foram omitidos, por segurança].

“Antes, comemorávamos só em família, dentro de casa, porque não há liberdade religiosa no Afeganistão. Ser cristão é uma sentença de morte para nós.”

A família de Golsoon é uma das que foram resgatadas por um grupo religioso brasileiro que se dedica a ajudar cristãos perseguidos pelo mundo, a Missão em Apoio à Igreja Sofredora (Mais). Os 73 refugiados obtiveram um visto humanitário, documento emitido pelo Brasil para afegãos desde que o Talibã tomou o poder novamente em Cabul, em agosto.

São casais com crianças, idosos e jovens solteiros que chegaram em quatro grupos entre 25 de novembro e 18 de dezembro, após meses de incerteza, barreiras burocráticas e riscos durante a viagem.

Atualmente, eles ocupam seis alojamentos, além de oito casas com cozinha, sala, banheiro e dois quartos, construídas para recebê-los. Mais cinco casas devem ser inauguradas nos próximos dias, e outras cinco, de três quartos, em janeiro.

A vila, que fica na base da Mais, foi batizada de Cidade do Refúgio e inaugurada oficialmente com um culto no último dia 18. A reportagem visitou o local na véspera, quando só dez das 73 pessoas ainda não haviam chegado. A maioria ainda estava se ambientando, mas o clima geral era de alívio, com crianças correndo e brincando, senhoras sentadas no meio-fio observando a vista e casais cozinhando. Algumas mulheres tinham a cabeça coberta por um lenço -o costume não é só religioso, mas também cultural.

Na porta de cada casa, havia um papel com o sobrenome da família moradora e os sapatos de todos os ocupantes do lado de fora, conforme o costume local. Agentes públicos de saúde aplicavam as vacinas que faltavam para cada um, de Covid-19 e influenza a hepatite e febre amarela.

A ideia é que eles fiquem na Cidade do Refúgio nos primeiros quatro meses, resolvendo questões de documentação, saúde e tendo aulas de português. Depois, serão direcionados para outras cidades, abrindo espaço na vila para novos grupos que aguardam, no Paquistão, a liberação para voarem ao Brasil.

A Mais, que vive de doações, fez um apelo para que igrejas evangélicas de todo o país “adotem” uma ou mais famílias por no mínimo um ano, bancando aluguel e outras despesas e ajudando-os a conseguir emprego. Segundo Luiz Renato Maia, pastor presbiteriano que é presidente da missão, há interessados suficientes para quase toda a lista. As doações de roupas também foram abundantes, a ponto de eles terem tido que parar de recebê-las. “É uma causa que mobiliza, graças a Deus”, afirma.

CRISTÃOS CONVERTIDOS

O Afeganistão é o segundo país que mais persegue cristãos, atrás apenas da Coreia do Norte, segundo a ONG internacional Portas Abertas, que faz o levantamento anualmente. “É impossível viver abertamente como cristão no Afeganistão. Deixar o islã é considerado vergonhoso, e cristãos convertidos enfrentam graves consequências se sua nova fé é descoberta. Ou eles precisam fugir ou serão mortos”, afirma a página da entidade.

Com isso, não se sabe quantos afegãos professam essa religião. O ICC (International Christian Concern), baseado nos EUA, estima que eles sejam entre 10 mil e 12 mil -uma parcela ínfima da população de 38 milhões. O Escritório de Liberdade Religiosa Internacional projeta que as minorias não islâmicas sejam menos de 0,3%.

Praticamente todos são ex-muçulmanos convertidos, que precisam esconder esse fato até dos próprios parentes, por medo de represálias.

“É um cristianismo familiar, exercido dentro de casa. Levamos um grupo [dos acolhidos] à cidade e eles entraram pela primeira vez em uma igreja”, conta o pastor Maia.

Em setembro, o presidente Jair Bolsonaro (PL) citou em seu discurso na Assembleia-Geral da ONU que o Brasil concederia vistos para “cristãos, mulheres, crianças e juízes afegãos”. A menção ao cristianismo abriu dúvidas sobre a imposição de alguma condicionante religiosa para a concessão de vistos, algo que não está na portaria que regulamenta esse documento. Na época, diplomatas consultados pelo jornal Folha de S.Paulo disseram que isso não estava ocorrendo na prática.

Nesta quarta (29) o Itamaraty informou que o tratamento do tema dos vistos “está em sintonia com a política nacional de acolhida humanitária e com a cultura de solidariedade da sociedade brasileira” e que não é feito “nenhum tipo de discriminação com base em religião”.

A Mais foi criada em 2010, para ajudar na reconstrução do Haiti após o grave terremoto que deixou 250 mil mortos. Desde então, a organização auxilia cristãos perseguidos em países como Guiné-Bissau, Colômbia e Tailândia. O programa para trazer refugiados ao Brasil, criado em 2013 para os casos mais extremos, tinha recebido até agora 240 pessoas, de países como Síria, Paquistão e Iraque.

Um deles, o iemenita Sammy, 52, que chegou em 2016, hoje é voluntário na Cidade do Refúgio, ajudando os afegãos com a documentação e com apoio espiritual.

“Refugiados são pessoas que perderam tudo, que vêm sem nenhuma esperança. Eles precisam de apoio, de carinho. Conheço esse sentimento em profundidade, porque passei por isso”, diz.

A lista de afegãos a serem resgatados pela Mais foi feita com a ajuda de um casal de brasileiros que morou no país da Ásia Central por alguns anos. São pessoas com profissões diversas, de eletricista e motorista a advogados e administradores. A mais jovem é um bebê que nasceu no Paquistão dias antes da viagem, de um parto prematuro. Um dos mais velhos é um senhor que está traduzindo a Bíblia para o dari, idioma afegão.

‘NÃO DEU TEMPO DE PEGAR NADA’

No caso da advogada Golsoon, a religião é um entre vários fatores que tornam sua família vítima de perseguição. Seu marido era militar do Exército e ela era professora universitária e ativista pelos direitos das mulheres em projetos com uma ONG americana.

“Eles estão procurando essas pessoas e matando uma por uma”, diz. Até sua filha de 12 anos era um possível alvo, pois se apresentou como cantora em programas de TV -algo visto com maus olhos pelos radicais do Talibã.

A família trouxe apenas a roupa do corpo e os passaportes. “Não deu tempo de pegar nada, não dava para ficar nem mais um dia lá. Quando chegamos ao Paquistão, meus vizinhos nos ligaram e disseram que os talibãs tinham ido procurar meu marido. Graças a Deus, escapamos.”

Até a última hora, eles tiveram medo de serem descobertos e presos. Quando pisaram no aeroporto de Guarulhos, ela abraçou sua amiga Farhanaz, que agora divide a casa provisória com eles, junto com os pais e quatro irmãos.

“Choramos juntas, pensando nas mulheres que ficaram lá. Toda mulher no Afeganistão tem uma dor. Minhas amigas em Cabul estão todas dentro de casa, sem poder sair. É muito difícil não poder fazer nada por elas”, diz. “Fiquei tão estressada com a chegada do Talibã que não conseguia nem andar. Lutamos por 20 anos para ter nossos direitos e de repente retrocedemos para aqueles tempos terríveis.”

Ela volta a chorar ao falar do assunto e diz que quer seguir na causa dos direitos das mulheres afegãs, mesmo que de longe. As emoções do grupo estão à flor da pele. A mãe de Farhanaz vai às lágrimas quando a filha declama um poema que escreveu sobre a saudade do país natal.

Mas a expressão dominante é de alegria e esperança. “Eu gosto de viajar e gosto de sorvete”, diz, em português, a filha de Golsoon. São as duas frases que ela aprendeu em seu segundo dia no Brasil. Em outra casa, um casal colocou adesivos na geladeira com palavras em português: alface, carne, lâmpada, porta.

Depois de declamar o poema, Farhanaz mostra um caderno no qual escreveu sobre sua longa jornada do Afeganistão até o Paquistão e depois para o Brasil. A jovem de 24 anos diz que quer continuar com o diário após a chegada. “Minha história não acabou. Está só começando.”

 

 

Da Folhapress