A guerra entre a Ucrânia e a Rússia completa 1 mês nesta 5ª feira (23.mar.2022), mas o conflito parece estar longe do fim. Delegações de ambos os países se reuniram em 4 rodadas de negociações desde o início do conflito. No entanto, não chegaram a um acordo de paz.

A Ucrânia afirma que os diálogos entre os países estão “muito difíceis”. Também disse que, embora esteja disposta a negociar, não vai se render ou aceitar “ultimatos russos”. A Rússia diz que Kiev faz “propostas inaceitáveis para o país”.

Para entender quais são os possíveis desdobramentos do conflito, o Poder360 conversou com 3 especialistas:

  • Juliano da Silva Cortinhas – professor do Instituto de Relações Internacionais da UnB (Universidade de Brasília) e coordenador geral do Grupo de Estudos e Pesquisas em Segurança Internacional;
  • Augusto Teixeira – professor do Programa de Pós-Graduação em Ciência Política e Relações Internacional e do Departamento de Relações Internacionais da UFPB (Universidade Federal da Paraíba);
  • Danielle Jacon Ayres Pinto – professora de relações internacionais da UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina) e coordenadora do GEPPIC (Grupo de Pesquisa em Estudos Estratégicos e Política Internacional Contemporânea).

Durante as entrevistas, os professores apresentaram 3 possíveis cenários:

  • Êxito nas negociações entre os 2 países levar ao cessar-fogo;
  • Tomada de Kiev e derrubada do governo Zelensky;
  • A queda do regime de Vladimir Putin por causa da pressão causada pelas sanções.

SUCESSO NAS NEGOCIAÇÕES 

Os especialistas concordam que a chegada de um consenso entre os países por meio de negociações ainda é o desdobramento provável.

Augusto Teixeira afirma que os diálogos vão “ser a saída para essa guerra”. Embora avalie que a Rússia no momento “não está investindo tanto no avanço das negociações” em razão dos “objetivos militares a perseguir na Ucrânia”, o professor aponta que a via diplomática não cessou até o momento.

“Exige uma chance grande de termos um acordo de cessar-fogo e de paz, mas ainda está subordinada a condições de barganha mais interessante para a Rússia”, disse.

Juliano Cortinhas analisa haver “uma brecha para o diálogo” porque a Rússia ainda não tomou o controle de Kiev, capital ucraniana, e nem destituiu Volodymyr Zelensky do poder.

“Os russos caminham a passos lentos [na negociação] porque eles esperam que a situação possa ser negociada a partir de um acordo que os beneficie”, afirma o professor.

Os pontos apontados pelo professor como favoráveis à Rússia são: a Ucrânia aceitar reconhecer a independência das regiões de Donetsk e Luhansk, em Donbass, a Crimeia como parte do território russo e garantir a não entrada na Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte).

Danielle Pinto também acredita na possibilidade de novas negociações entre os países. Contudo, para a professora de relações internacionais, a Rússia deve primeiro intensificar os ataques.

A escalada das ações militares russas na Ucrânia faz parte da estratégia do Kremlin em conquistar a cidade portuária de Mariupol e isolar a capital Kiev. “Tem-se o [aumento] de ataques naquela região de Lviv e na cidade de Ivano Frankivsk, talvez com mísseis hipersônicos ou de cruzeiro para impedir que ajuda do ocidente chegue de Lviv até Kiev”, disse.

“Cria-se uma barreira e um ataque aos arredores de Kiev e mantêm-se as forças da guarda nacional protegendo a capital e não se deslocando para o leste. Depois disso, é uma vitória sensível da demanda de Putin”, disse. Com cerco, a professora da UFSC avalia as negociações ficam mais prováveis. No entanto, a Rússia terá mais poder de barganha que a Ucrânia.

TOMADA DE KIEV

O controle da capital ucraniana e a derrubada do governo de Volodymyr Zelensky é o 2º cenário possível apontado pelos especialistas.

Cortinhas avalia que, se não houver um diálogo entre os países e a negociação não sair nas próximas semanas, “é possível que russos resolvam destituir Zelensky do poder”. No entanto, o professor afirma que Vladimir Putin pode ter dificuldades em estabilizar a Ucrânia no médio e longo prazo.

[Isso] porque eles [os russos] vão colocar um governo que não tem apoio popular, que não é legítimo. Eles vão ter que reconstruir o país a partir dos seus próprios recursos já que a Ucrânia vai ter um nível de destruição muito acima do que nós temos visto. Esse é um cenário que não é desejado, mas é possível”, disse.

Segundo Teixeira, há a possibilidade da Rússia intensificar seus ataques nas próximas semanas e essa estratégia teria como objetivo aumentar o cerco a Kiev. “A Rússia pode perseguir um objetivo político vinculado à Kiev como centro de gravidade, especialmente porque é lá que se tem a sede do governo e o poder político do país”, disse.

O professor analisa que os ataques à capital tornaria o conflito em “uma guerra de ambiente urbano, no qual o nível de destruição pode ser extremamente elevado” em comparação ao que foi registrado em Mariupol e Kharkiv.

Em relação à tomada da capital, Teixeira avalia que a Rússia tomaria o controle da comunicação e logística de Kiev com o mundo exterior. Mas afirma que, se o cerco a capital for fechado, “a tendência é ele ir se reduzindo lentamente”. Segundo o professor, essa é uma estratégia de controle indireto.

“Não é uma corrida russa para tomar Kiev de uma vez só. É uma estratégia que demanda mais tempo”, disse.

QUEDA DO REGIME DE PUTIN  

Juliano Cortinhas e Augusto Teixeira trazem uma 3ª possibilidade: o fim do governo de Vladimir Putin por causa de uma pressão popular da sociedade russa. As sanções impostas contra a Rússia e suas consequências econômicas para o país seriam os principais motivos. No entanto, os especialistas afirmam que esse desdobramento é o menos provável.

“É um cenário drástico que pode ocorrer, [mas] eu acredito que seja extremamente improvável. O apoio popular ao presidente russo e à guerra poderia diminuir em virtude do peso das sanções. Isso geraria um incetivo para que as elites e as forças de segurança da Rússia retirassem Putin do poder”, disse Teixeira.

Cortinhas também avalia que o cenário “é improvável”“É possível que cresça a oposição à Putin na Rússia em razão das sanções, devido ao longo esforço de guerra. Nesse caso, nós vamos ter uma finalização do conflito de outro modo. Os russos se retiram [da Ucrânia] e vão arcar com as responsabilidades da invasão”, afirma o professor.

Essa reportagem foi produzida pela estagiária de Jornalismo Júlia Mano sob supervisão da editora-assistente Amanda Garcia.

 

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