Após quinze dias fora, viajando por sete capitais brasileira, finalmente desembarquei na Ilha do Amor, cruzei a soleira do portal de casa. Como nosso imenso Brasil é fascinante e surpreendente! Nesta viagem tive a oportunidade de fechar todas as capitais dos 27 estados da federação.

Somos um país continental, com peculiaridades em cada região, quiçá, em cada estado. Isso, enriquece ainda mais nossa diversidade. Mas temos uma coisa em comum, a receptividade e a alegria de nosso povo. Somos únicos, diferentes de todos os demais povos desse mundão.

Onde chego fui bem recebido, a conversa flui rapidamente, em pouco tempo somos próximos, falamos de tudo, sempre procurando evitar o assunto de discórdia, de cizânias, a polarização política que tomou conta do mundo, no Brasil não seria diferente.

Tempos esquisitos e tóxicos esses que estamos vivendo e vivenciando, onde brigamos idiotamente por políticos, que nem sabem de nossa existência, em vez de defendermos ideias e ideais, a procura de saídas para nossos problemas que só aumentam. Diferente de um europeu quando encontra outro, ou um asiático, nós brasileiros somos calorosos, efusivos, comunicativos. Isso é natural nosso.

Desde motoristas de aplicativos, aos recepcionistas de hotéis e restaurantes, todos renderam boas conversas, algumas darão boas crônicas no futuro. Gosto de escutar pessoas, sempre rende ótimos relatos de coisas e situações inusitadas. Digo que não fiz curso de oratória, fiz de escutatória. Afinei o ouvido para escutar meu interlocutor. Todos nós gostamos de ser ouvidos, nos sentimos prestigiados.

Li recentemente o relato de um jornalista norte-americano, escalado para acompanhar o dia de dois dos maiores empresários da cidade. O primeiro empresário o recebeu, mostrou sua empresa, sobrevoaram a cidade de cima, em seu helicóptero, lhe mostrou riqueza e poder. No dia seguinte, o segundo empresário ao recebê-lo, perguntou seu nome, há quanto tempo trabalhava no jornal, se era casado, quantos filhos. Ao apresentá-lo ao funcionários, chamando-o pelo primeiro nome, depois, convidou-o para almoçar, e pediu que ele escolhesse os pratos, o vinho e a sobremesa. Ao voltar para casa, ao final da segunda entrevista, o jornalista sabia o verdadeiro sentido de ser importante. Ele fora recebi por dois homens ricos, poderosos, mas diferentes. O segundo homem de negócios o tornou importante, pela maneira como conduziu o encontro, pela atenção dispensada.

Sou falante, me policio para falar menos, e ouvir mais, com atenção, meus interlocutores, pois não tendo dinheiro em excesso, dou o melhor de mim: meu tempo e minha atenção. Em andanças pelo exterior sinto falta de calor humano, as pessoas de lá não têm a afinidade que nós brasileiros temos, já nascemos assim.

No giro pelas regiões norte e centro-oeste do Brasil, tive a oportunidade de ser entrevistado dezessete vezes nas sete capitais por onde andei: jornais impressos e digitais, blogs, e TVs. Como o sul-americano mais viajado do mundo com mobilidade reduzida, e ter andado por 143 países, contar para diferentes plateias, foi a maneira que encontrei de falar de sonhos, metas, objetivos, projetos de vida, e mostrar que todos têm capacidade de atingir seus objetivos.

No outono da vida, descobri-me um Forrest Gump, andarilho e contador de histórias. As melhores histórias que ouvi foram em conexões longas, em aeroportos. Parafrasiando Alberto Caeiro, heterônimo de Fernando Pessoa: “Não é bastante ter ouvidos para ouvir o que é dito; é preciso também que haja silêncio dentro da alma”. Daí a dificuldade: a gente não aguenta ouvir o que o outro diz sem logo dar um palpite melhor, sem misturar o que ele diz com aquilo que a gente tem a dizer.

Nossa incapacidade de ouvir é a manifestação mais constante e sutil de nossa arrogância e vaidade: no fundo, nos achamos superiores, mais inteligentes, e até mesmo mais bonitos. Afinar os ouvidos, e saber ouvir é uma arte.

 

Luiz Thadeu Nunes e Silva, Eng. Agrônomo, Palestrante, cronista e viajante: o sul-americano mais viajado do mundo com mobilidade reduzida, visitou 143 países em todos os continentes.