Acordo pensando em sons que estão se perdendo.

Volto aos anos 60 numa São Luís bem menor que a atual, com a nítida lembrança dos chamados dos vendedores ambulantes: “É o eideal (cuscuz ideal)”; “Camarieu! Camarieu grauudo! (Camarão) ; “Peixe… peixe pedra!”, “Garrafeeiro!”.

De vez em quando ainda se escutam essas vozes, cada vez mais raras. Tempos em que era tradição esperar o sol da tarde aliviar seu calor para colocar as cadeiras no terraço ou na calçada, sempre com algumas a mais disponíveis, porque amigos e conhecidos paravam e sentavam para conversar.

As frequentes interrupções da energia elétrica eram entendidas por nós crianças, como “geral” (quando não demorava a ser restabelecida a luz) ou “só uma fase” (que nos chateava, porque demoraríamos mais a poder ver TV ou brincar, pois havia nessas ocasiões o risco de nos mandarem dormir mais cedo).

Tempos de transformar caixotes grandes em casas, de torcer pelos mocinhos do forte apache, alheios à vilania atribuída aos indígenas de forma tão preconceituosa. De festas de aniversário com mesas e garrafas de refrigerante enfeitadas uma a uma. De tristeza por verdadeiras injustiças cósmicas se faltava energia num aniversário, suprema decepção!

Gritos de “boi solto” no Retiro Natal de meus primeiros anos, as mães celeremente recolhendo a criançada que brincava na rua para a segurança do lar, homens correndo atrás do animal um tanto desorientado até conseguirem conte-lo. De brincar arrastando carrinho pelas calçadas cujos desníveis e buracos conhecíamos como a palma de nossas mãos. De entra e sai apressados em casa para beber água e voltar o mais rápido possível a brincar. Dos mais apressadinhos que desobedeciam as mães tomando água direto da torneira ou das mangueiras que regavam os jardins ou limpavam a frente das casas

Da vontade do tempo correr mais rápido para ser logo adulto, aprender a nadar para ser promovido da piscina de criança para a de gente grande.

Das preguiças de tomar banho e da gente se chatear quando não colava o truque de só molhar a cabeça, invariavelmente descoberto pelas mães (e nos perguntávamos como é que elas descobriam sempre?).

De idas à praia com jeito de viagem, do sono que nos fazia perder atrações e nos fazia invejar quem conseguia ficar acordado até a meia noite nas vésperas de natal .

Infância simples, igual à de tantos, e ainda assim mágica.

Gratidão por ter podido ser criança sem preocupações. Tristeza por quem não teve ou não tem a mesma chance.

Desde pouco antes de ser avô ganhei de presente um olhar mais perceptivo para crianças. Há beleza nas oportunidades trazidas pelo envelhecimento.

 

Ivan Abreu Figueiredo. Cronista, médico dermatologista, muito conceituado em São Luis. É professor universitário e chefe do departamento do maior hospital da cidade.