Um dia qualquer, ao olhar as redes sociais, vi que somos todos da mesma cor. Disso eu já sabia. O que eu não tinha observado ainda é como o nível de hostilidade humana sobre as diferenças dos outros, tem evoluído assustadoramente. Como todos os dias, comecei a ler as notícias da manhã. Imaginando que já havia visto de tudo, uma publicação me chamou a atenção: uma reportagem sobre uma senhora que foi resgatada dos maus tratos pelos quais passou no trabalho, durante 54 anos da sua vida.

Salve, Madalena! Esse é o nome da doméstica que ficou com muitas cicatrizes do desprezo que sofreu. Cicatrizes que não são possíveis de serem vistas, porque fixaram-se na alma. “Eu fico com receio de pegar na sua mão branca”, foi uma das frases soluçadas por Madalena, ao negar segurar a mão da repórter. Fiquei pensando como a expressão “ir longe demais” se torna insignificante diante do tamanho das agressões psicológicas que um ser humano pode causar à outrem.

O choro daquela mulher representa as lágrimas derramadas por tantos que são menosprezados pelo simples fato de terem nascido com um fototipo cutâneo, que muitos se acham no direito de enxergar como inferior.

Parafraseando Lulu Santos, “pode até parecer clichê, pois que seja clichê então”, o que há de superior na cor de pele de uma pessoa em relação a outra? A estrutura humana é uma só. O que realmente difere é a maneira de viver. Uns bons, outros maus. Uns humildes, outros soberbos.

A escravidão do século XXI, além de ser camuflada através de “trabalhos” desumanos, se apresenta nitidamente no medo que aprisiona uma pessoa como a Dona Madalena, fazendo-a acreditar que sua cor é feia perto de outra pessoa com menos melanina. Nunca tinha visto tanta dor e tristeza através de um olhar, como daquela forma.

São tantas Madalenas escravizadas nas senzalas modernas! Expulsas de casa em uma noite chuva, sem ter para onde ir, assim como fizeram com a doméstica.

Por que continuar com esses atos? Consciência e respeito não têm cor, mas nós temos. E somos todos de uma cor só, pois vivemos debaixo do mesmo céu. Atentemos à natureza e seus ensinamentos. A chuva, por exemplo, não escolhe quem vai molhar. Existem ovos com cascas de cores diversas, mas o conteúdo de todos é o mesmo. O arco-íris possui vários tons, mas é um só. Somos um só. Fazemos parte de uma engrenagem que precisa da sincronia de valores pessoais para viver de forma saudável em sociedade. Do contrário, nada mudará.

 

Maria Daniele de Souza Lima. Professora, Colunista e estudante de Jornalismo Digital. Paraibana, natural de São Paulo, apaixonada pela comunicação.