Já são alguns anos vivendo com a náusea das relações humanas e institucionais esgarçadas. Um mal estar persistente impulsiona à reflexão e oração. Busco refúgio no Pai e em Sua revelação, a Palavra. Um drone sobrevoa os livros de Samuel, os relatos sobre o Davi que de pastor de ovelhas chegou a rei e seu relacionamento com o rei Saul que o antecedeu.

Durante anos Davi sofreu sob a instabilidade emocional de Saul e sua crescente concentração em manter o poder a absolutamente qualquer custo sem se importar com os métodos utilizados. Houve a fase de uma dimensão um tanto paternal, do homem mais velho que precisava do talento musical do mais novo para sair de crises de angústia, marcada por uma tentativa de assassinato com uma lança, levando à fuga do mais jovem. Junto com o reconhecimento da liderança de Davi, Saul evolui para a tática da cooptação, dando-lhe sua filha Mical em casamento.

Usar laços familiares como mecanismo de manutenção de posições ainda é praticado hoje em dia, e não só nos regimes monárquicos… A amizade entre Davi e Jonatas, filho de Saul, se eleva acima dessa mediocridade, permanece marcada pela compreensão e confiança mútua, supera as tentativas de semear dúvidas e discórdia entre eles. Davi é perseguido durante anos por Saul, tem a oportunidade de matá-lo ao encontrá-lo adormecido em uma caverna e não o faz. Deixa clara sua presença e misericórdia ao opositor, que demonstra um arrependimento que se revela superficial e momentâneo, talvez parecido com as “satisfações aos seguidores” de hoje em dia. Mais longos meses e anos se passam e o rei Saul, junto com Jonatas, morre na guerra.

Davi ascende à liderança de seu povo entre lágrimas sinceras de lamento pelo filho e pelo pai, pelo amigo e pelo inimigo. Um tanto mais estabilizada a situação, procura os descendentes de Jonatas, descobre um deficiente físico e o acolhe sob sua proteção. Depois a semente maligna da desconfiança e despeito irão contaminaram este rapaz contra Davi, mas nada disso apaga a riqueza do gesto de magnanimidade, semente de uma ética de proteção aos mais vulneráveis. No lugar do extermínio, a misericórdia.

Corte para nosso triste país, para o orgulho da defesa de posições de poder usando todo tipo de contato e artifícios. Para um vale tudo em que se vê o oponente como inimigo a ser exterminado, inclusive em nome de Deus, numa manipulação grosseira totalmente diferente do evangelho verdadeiro. Volto ao Davi que era convicto da sua escolha por Deus para a função que um dia exerceria e sua recusa repetida a usar métodos baixos e desonestos para apressar seus dias de rei. Sua confiança e espera pelo tempo em que Deus lhe faria justiça.

Sua resistência à tentação de fazer justiça com suas próprias mãos e aos conselhos “espertos” de gente próxima capaz de induzi-lo ao erro. Sua capacidade de pensar mais amplo, refrear suas indignações diante de repetidas agressões, sua habilidade até de compreender que com o gesto público de beneficiar os descendentes do que tanto o perseguira estava contribuindo para a pacificação de um povo dividido pelos males de uma liderança tóxica. O exato oposto do mito da caixa de Pandora aberta com a liberação de muitas desgraças.

Volto à Palavra em busca de princípios, e eles lá estão. Basta apurar o olhar, deixá-lo submisso ao que o texto quer dizer, não distorce-lo para concordar com nossas opiniões.
Basta de elogios à tortura e torturadores. Basta de discursos de ódio que conclamam ao extermínio de opositores. Basta de violência e agressões verbais e físicas, em que não faltam excrementos humanos e animais. Basta de ameaças com o intuito explícito de intimidação.

Quanto ao povo que afirma professar o cristianismo, basta de se acumpliciar com uma linguagem vulgar e cheia de palavrões, negando a verdade segundo a qual a boca fala do que o coração está cheio. Basta do desrespeito com Deus, reduzindo-o à condição de cabo eleitoral. Basta da relativização dos valores da Escritura disfarçados como defesa da Verdade. Basta de deslumbramento com líderes que representam anti-valores.
Misericórdia, Senhor, sobre nosso país!

Bom dia, com esperança teimosa em tempos de cólera.

Ivan Abreu Figueiredo