Era professor há pouco tempo, já fisgado pelo enfrentamento à hanseníase. Estávamos no antigo hospital-escola, em mais uma tarde comum de ambulatório. Entra um menino de 14 anos, o J.A. Vem com a mãe, o jeito acanhado de ser daqueles a quem é negada cotidianamente a dignidade intrínseca a todo ser humano. Precisava de uma declaração de não ter doença infecto-contagiosa que o impedisse de assumir um lugar de menor aprendiz.

Estava cercado pelos alunos e parti para examinar o garoto, explicando a eles o passo a passo do que precisava ser feito. J.A. estava com hanseníase, seu corpo franzino com várias placas avermelhadas, a alteração de sensibilidade bem evidente. Tento explicar com cuidado para mãe e filho o que está acontecendo, a impossibilidade de fornecer a declaração, o tratamento a ser iniciado naquele exato momento. Seguem-se trocas de olhares reveladoras, a principal entre filho e mãe. Ele chora e ela o consola. A atitude dele é a de um grande “E agora, mamãe?”.

Ela é firme, rija, traz dentro de si a mãe coragem. A cena parte os corações. Sinto-me o desmancha-prazeres, aquele que tirou o pirulito da boca da criança. Aprendendo a ser médico e gente, tentando temperar a notícia triste e seus significados, raia a compreensão ampliada das dimensões da perda que estavam experimentando, a partir do meio salário mínimo que seguramente já tinha destino certo, passando pela preocupação com a saúde do rapazinho. Uma bela dupla os dois, aquele jeito de parceiros para toda vida.

Aí veio outra troca de olhares, porque a estudante de lindos olhos verdes chorava, compaixão à flor da pele. Quando a vi houve um encontro de almas, uma grande identificação. Soube instintivamente que ali estava uma grande profissional e pessoa. J.A. seguiu seu tratamento completo, sua mãe escudeira constante, uma loba cuidando de sua cria até ferozmente se preciso fosse. Passados cerca de trinta anos, sem tê-los visto desde o final bem sucedido do tratamento, é razoável pensar no J.A. como pai e na sua mãe como avó. Hoje ele é um quarentão, mas para mim será sempre a figura daquele adolescente que calou fundo.

Quanto à aluna sensível, mais que confirmou meu prognóstico. Tornou-se referência em sua área, fez mestrado e doutorado, enfrentou uma doença barra pesada e a superou. Casou com outro ex aluno e continua a espalhar sua bondade e talento.
Essa semana indicaram o nome dela para uma palestra aos alunos do curso que coordeno, atiçando meu orgulho de professor. Conversamos alegremente ao telefone, o horário batia com seu ambulatório de diabetes infanto-juvenil e a imaginei solidária aos doentes e acompanhantes, a floração perfumada daquela quase menina cujas lágrimas me tocaram há mais de trinta anos.

Foi uma das primeiras vezes em que descobri que professor vira fã de aluno. E quando nossos prognósticos se confirmam surge uma alegria imensa, acompanhada de uma ponta de orgulho que arrisco saudável, suspeitando que talvez um pequeno tijolo da edificação nobre que está à nossa frente tem a marca de nossa participação.
Gratidão profunda pelo vivido e rememorado.

Bom dia.
Ivan Abreu Figueiredo