As redes sociais implicam em uma solidão não sentida na ilusão do convívio virtual, seja no
transporte público, na praia, no bar ou restaurante, até mesmo entre amigos, navegamos por ela na solidão. Criando uma barreira do grupo ali presente para nos tornar ativos em um ambiente intangível fisicamente. Sob a proteção de um avatar, nos sentimos seguros na tríade: pensar, elaborar, expor. A segurança que a invisibilidade proporciona, facilita abordamos assuntos diversos com liberdade, pouca sensibilidade e quase nada de responsabilidade, considerando o outro que nos lê. São quase quatro horas diárias conectados nas redes sociais, sendo as mais acessadas WhatsApp, YouTube e Instagram respectivamente.

Hoje muitas pessoas estão tão envolvidas na vida virtual que esquecem de investir na vida física1. Na mídia existem diversas obras onde as personagens vivem uma espécie de torpor na vida física, um mundo em preto e branco, enquanto ficam submersos em plataformas digitais, por exemplo os filmes A Origem (2010), Jogador Nº1 (2018), Nerve (2016) e O Círculo (2017) e a série Black Mirror (2011-Presente) tem vários episódios que falam sobre o assunto, gostaria de destacar Queda Livre (T03E01).

Mas saindo da esfera artística tem viralizado uma entrevista de um jovem de 21 anos que cortou laços com a família por não ter seguidores em quantidade que os tornassem “relevantes”. Se a vida imita a arte ou o contrário, não sei, porém pode-se notar que ambas se retroalimentam. Fico pensando, o que isso diz sobre nós quanto sociedade? Num mundo onde a relação com a vigília não é mais de fuga e sim de ir ao destaque, numa Sociedade do Espetáculo (Debord 1992) onde as imagens são cada vez mais coberta por filtros digitais, onde fica o espaço para as relações além de curtir e compartilhar? Pensando em palco, somos protagonistas em nossas histórias, contudo, dividimos os holofotes com outros, ou seja, imagina como se cada um fosse uma emissora e todos estamos passando ao mesmo tempo no ar.

Bem, até agora pincelamos sobre como é esse ambiente virtual, vamos pensar em como nos comportamos? Quero fazer esse convite já que por trás de uma tela temos um escudo que nos dá a sensação de impunidade e segurança para falarmos o que quisermos, tende-se a pensar a internet é uma terra de ninguém, esquecendo que do outro lado existe outro ser humano, tal qual a si, com suas batalhas, amores e medos. Diariamente são destilados comentários sobre o corpo, a religião, inclinação política, sexualidade ou qualquer outra coisa, sem ter responsabilidade sobre como o outro vai receber essas palavras, acreditando que sua opinião tem que ser dita, afinal, hoje eu tenho o poder de projetar meu pensamento na palma da minha mão.

Você já deve ter ouvido a frase: “com grandes poderes, vem grandes responsabilidades”. E sim, com o poder de “falar” aos quatro ventos virtuais, temos responsabilidade pelo que bradamos. Uma vez ouvi de um conhecido em um grupo de Whatsapp que daqui a pouco teremos que nos preocupar em como o outro irá se sentir com o que falamos, eu particularmente sempre acreditei que essa era a base moral da educação e do convívio social. O que mais assusta nesse comentário é que ele é bem comum hoje em dia. Não sabemos as dores que o outro carrega para saber o limite entre uma piada e
uma ofensa, a empatia é um ingrediente em falta nos pacotes de dados contratados.

Orbitando apenas aquilo que é familiar, não se abre para novas vivências, apesar do vasto mundo de possibilidades, se navega sempre pelas mesmas ideias, negando o diferente com violência, escárnio e desvalidação. Num mundo onde os egos se tornam cada vez mais frágeis, sendo validados apenas por números de seguidores, likes e recebidos, há como lidar com o que denuncia do que está por trás do filtro? Num mundo onde o digital influencer é o que nos anos 80/90 eram o jogador de futebol e a modelo, é importante pensar no que se influencia.

No Youtube temos possibilidades de conhecer coisas que antes eram restritas a um grupo, eu mesmo decorei minha casa vendo vídeos de arquitetos, como também temos possibilidade de produzir o conteúdo daquilo que não vemos na TV, podemos falar e ouvir o que, quando e onde queremos. Podemos ver do documentário ao Big Brother e para tudo tem espaço. Concluindo, gostaria de trazer para reflexão o uso que fazemos das redes sociais, é um espaço de troca riquíssimo, tal qual também pode ser muito violento.

Vamos lembrar que apesar dos filtros, são pessoas físicas que estão do outro lado que vão receber o que está sendo dito. Vamos nos pôr presentes onde atuamos, seja o palco da vida física ou o palco virtual e saber que ele é dividido com diversas outras formas de atuações, que nem sempre serão iguais, porém da mesma forma rica. A
liberdade de não entender o modo de vida de nossos pares continua existindo, o que não muda é que devemos sempre respeitar, se uma vivência não te toca, mas se é importante para o outro, acolha!

Sandro Bernardo Santos da Silva

Sobre o autor: Psicólogo Clínico