Na imagem, a Casa Rosada, sede da presidência da República argentina

A Argentina enfrenta um ciclo de crises econômicas há décadas. Desde julho de 2012, quando a taxa de inflação atingiu 9,9%, o país não registrou um índice de preços abaixo de 2 dígitos. Durante esse período, o menor percentual foi de 10%, em agosto de 2012. Isso significa que, em 2022, a inflação argentina completará 10 anos acima de 2 dígitos. Projeções indicam que ela chegue aos 90% até o fim deste ano.

Segundo os dados levantados pelo economista argentino Nery Persichini, formado pela Universidade de Buenos Aires e atual chefe de Pesquisa e Estratégia da gestora de fundos GMA Capital, argentinos que têm de 1 a 15 anos em 2022 nunca vivenciaram um período econômico com inflação de um dígito.

Aqueles com 78 anos, idade mais velha considerada pelo economista, viveram apenas 17 anos com uma taxa menor de 2 dígitos, o que representa 22% do tempo de vida deles.

Persichini afirma, em tom irônico, que os millenials são os mais “privilegiados”. Os dados mostram que aqueles que nasceram entre 1981 e 1993 (e têm de 29 a 41 anos) viveram um maior tempo de suas vidas com índices de preço a um dígito. Isso em comparação com as outras idades.

Atualmente, quem tem 29 anos, por exemplo, vivenciou quase a metade de sua vida (41%) em um período econômico com taxa inflacionária menor que 10%. Já os argentinos com 40 anos, tiveram 30%.

Leia as estatísticas no gráfico abaixo.

Com a alta dos preços, escassez de combustíveis e problemas nas cadeias de suprimentos, a população argentina tem mostrado insatisfação contra o governo de Alberto Fernández e de Cristina Kirchner.

Milhares de manifestantes se reuniram nas ruas da capital Buenos Aires e de outras cidades do país durante os meses de junho e julho deste ano.

Grupos de trabalhadores, como a Unidad Piquetera, o MTE (Movimento dos Trabalhadores Excluídos) e a CTA (Central de Trabalhadores da Argentina) de Buenos Aires, pedem a criação de um salário básico universal de 20.000 pesos (aproximadamente R$ 790,60, na cotação de 6ª feira –29.jul).

Também querem a universalização de programas sociais e um aumento no salário mínimo de aposentados para 100 mil pesos (R$ 3.953 na cotação atual).

Produtores rurais manifestaram contra a escassez de combustíveis e criticaram as políticas para o meio rural em 13 de julho. Eles exigem também o fim da “voracidade fiscal” do governo e “do intervencionismo estatal”.

A atual crise na Argentina teve como estopim a renuncia do ex-ministro da Economia, Martín Guzmán. Aliado de Fernández, ele perdeu o apoio de Cristina Kirchner e foi pressionado pelo grupo político da vice-presidente para deixar o cargo.

O tensionamento teve como uma das causas o acordo fechado por Guzmán com o FMI (Fundo Monetário Internacional), em março, para renegociar a dívida de US$ 44 bilhões.

Kirchner e seus apoiadores não gostaram das reformas estruturais que o país deve implementar para cumprir o programa econômico. Entre eles estão cortes nos atuais subsídios de tarifas de energia, transporte e água com o objetivo de reduzir a dívida interna do país.

Desde então, Alberto Fernández e Cristina Kirchner protagonizaram momentos de discórdia. Ela defende uma intervenção maior na economia para mitigar os efeitos da crise junto à população de menor renda. Fernández tem uma atitude mais moderada.

Quando anunciou sua saída, Guzmán disse ter “profunda convicção e confiança” na sua visão econômica mais moderada. Ele foi substituído por Silvina Batakis que ficou apenas 24 dias no cargo.

Na 5ª feira (28.jul). Fernández decidiu unificar os Ministérios de Economia, Desenvolvimento Produtivo e Agricultura, Pecuária e Pescas. O “superministério” será comandado por Sergio Massa, então presidente da Câmara dos Deputados.

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