As eleições de 2022 no Brasil têm mostrado detalhes significativos que, até então, estavam camuflados pela aceitação disfarçada de patriotismo. Um país que é um só e que, dentro dos seus limites, apresenta uma certa divergência preconceituosa sobre a origem de muitos dos seus habitantes, tem vivido dias que causam sentimento de revolta. Pessoas que são vistas como inferiores pelo fato de serem pertencentes à uma região “seca, pobre, atrasada e analfabeta”. Estamos falando do povo da região Nordeste brasileira, esta que ultimamente mais parece um país dentro do outro. Água e óleo, como muitos acreditam.
Dizem que o fanatismo político é o culpado pelas declarações agressivas e xenofóbicas que estão sendo atiradas à população nordestina. Porém, é através deste tipo de comunicação distorcida que percebemos o que muitos sempre acharam dos nordestinos, independente de época de eleições. Não é de hoje que quem pertence à região de onde vieram Ariano Suassuna, Luiz Gonzaga, Jorge Amado e muitos outros nomes que são orgulho para o povo brasileiro, sofre preconceito lá fora. Infelizmente, quando digo “lá fora”, não me refiro ao exterior, mas fora do estado, dentro do mesmo país. Que vergonha!
O fato de boa parte dos votos que elegeu o candidato à presidência, Luiz Inácio Lula da Silva, no primeiro turno das eleições deste ano, serem da região Nordeste do Brasil, gerou grande insatisfação em quem se acha superior aos nordestinos, fazendo com que estejamos vendo todos os dias uma verdadeira “guerra” de um povo contra ele próprio. Incrível, né? Incrível como uma eleição é capaz de inflamar conceitos adormecidos que sempre existiram, mas que eram expressados residualmente em um evento ou outro no dia a dia da nossa sociedade verde, amarela, azul e branco. Sim, vale salientar que essas são as cores da bandeira brasileira, e não de um partido político.
São discursos que querem insinuar que os civilizados e letrados do Brasil sejam sulistas ou sudestinos, mostrando claramente como as pessoas ainda precisam parar para observar as riquezas do país como um todo, desde a sua cultura até as características específicas de cada lugar. Logicamente, não são todos os brasileiros que não são do Nordeste que têm preconceito com o povo da região, mas é triste saber que o nordestino seja desrespeitado dentro da sua pátria. A língua portuguesa nos ensina que não existe linguagem errada, mas um modo de se expressar inadequado para determinadas situações.
E assim acontece com as nossas origens: não somos inferiores por falarmos “oxente”, “visse” ou “mangar”, temos a nossa identidade, assim como qualquer outra região do Brasil, e não somos menos inteligentes. Analfabetismo existe em todo lugar.
Criou-se um estereótipo de que “Nordeste brasileiro” é terra de chão rachado pela seca extrema, pessoas vivendo na pobreza, residindo na zona rural de cor cinza, castigada pela estiagem infindável. Lugar de pouca educação, onde ninguém fala corretamente e nem sabe se portar fora dali. Pois é. O Nordeste, meu povo, não se resume como o cenário do romance “Vidas Secas”, de Graciliano Ramos.
A região Nordeste é dona de um litoral de beleza inegável, de uma cultura tão diversa que chega a faltar adjetivos para caracterizá-la. É o lugar de onde vieram grandes nomes da música, literatura, política, jornalismo e da arte como um todo. É de onde saem grandes profissionais de todas as áreas, nota mil no Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM) e muita fartura, pois é onde a chuva também intensamente para regar a nossa agricultura.
É uma pena que a xenofobia seja real, em um tempo em que tanta coisa já evoluiu. Que futuramente não tenhamos mais notícias desse tipo, afinal, quem ganhas as eleições vai governar para todos, e o povo deveria se conscientizar de que escolha é um direito de cada um e, se um povo está insatisfeito, ele tem total poder de decidir quem quer que saia e quem quer que fique. Lembremos que somos diversos, mas continuamos sendo Brasil.
Maria Daniele de Souza Lima
Sobre a autora: Professora, estudante de Jornalismo Digital. Uma paulista de nascença e nordestina de criação, apaixonada pela comunicação.
