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- Boa noite
- Deus te abençoe…
- E te guarde.

Uma conversa inofensiva permitida pela grande Rede. Inicialmente capaz de despertar picos de alegrias e risadas em frente à tela fria do aparelho. Parou por aí. Nada demais.

- Oi? Tem alguém aí? Fala comigo
- Senti sua falta.

Tudo bem. Não vai passar disso. Relações que começam na internet dificilmente saem desse universo e adentram a vida “real”.

- É só mais uma coincidência, temos encontrado várias.
- Signos, datas, cheiros, sabores e nomes.
- E além disso nossas conversas longas parecem segundos para mim.
- É…Ontem quase não consegui dormir pensando em tudo que está acontecendo.

Talvez seja interessante parar. Isso já está indo longe demais. Prometo para mim mesma que amanhã nem lembrarei disso e não responderei nenhuma mensagem. Feito.

No meio do trabalho, um apito, uma vibração. Sinais que ultrapassam o suportável para não responder. Quando vi, já foi.

- Oi. Também senti sua falta.

Promessa desfeita. Consciência aviltada por uma força inexplicável. Vida pessoal e real toda mexida por aquele “oi” numa rede social qualquer.

Como fazer de uma pessoa lar se o elo que nos liga a ela tem como trama as ondas frias do Wi-Fi?

Esquece. Apaga. Não tem futuro. Quando as relações são frutos da volatilidade da internet fica fácil de resolver!

Bauman e sua razão na sua teoria da modernidade líquida! É isso! As relações são frágeis, fugazes e maleáveis. Sobretudo as que se formam na internet…

É Claro…Vai, bloqueia. Apaga o contato. Some. Simples. É tão simples!

Os dias passam e as relações se tornam mais estreitas e o que se restringia a dedos digitando palavras se transforma numa invasão à vida “real”.

Tão real que as vezes parece paupável, só parece. Uma apropriação Imprevisível e agressiva…um esbulho possessório sem esperança de reintegração. Como uma adaga rasgando o peito da gente e bagunçando a organização do que a gente tem por dentro. Que droga!

- preciso dizer uma coisa
- Fala

Digita. Mais um pouco…É só enviar. No aviãozinho, isso….

Os dedos param de tocar a tela. Melhor apagar. Tudo. Vai. O excesso de consciência do mundo lá fora não permite. Esquece. Bloqueia. Apaga. Some. Já disse!

- eu te amo.
- …

 

- vai passar.

 


Raissa Cavalcante, colunista do portal Nordeste 1.