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Com um governo inteiro por formar, Lula chegou a Brasília nesta semana provocando uma previsível migração de interesses de todos os cantos do país para a capital federal. Os hoteis lotaram de figuras que vieram “tentar a sorte”, nas palavras de um aliado. Nomes que já integraram governos petistas, lobistas de diferentes setores da economia, amigos de amigos daquele amigo de Lula de verões passados. Todo mundo de olho no futuro ministério, nos cargos em estatais, no comando de colegiados setoriais, nas vagas em tribunais, agências reguladoras, assessorias importantes… É um mar de gente interessada.

Na montagem do primeiro escalão, Lula tem desviado de tudo isso com uma frase curta de alguém que coleta informações para depois depurá-las: “Estou ouvindo”. O petista não pretende anunciar ministros ou novos ministérios tão cedo. E tem muitos motivos para isso. O primeiro deles: a dúvida sobre a real situação financeira da máquina que receberá de Jair Bolsonaro. A equipe de transição de Lula começa a perceber que pode faltar dinheiro para criar todas as pastas que o petista deseja.

Outro motivo é o fogo amigo numa base com tantos partidos disputando espaços de poder. “Com 50 dias de transição pela frente, anunciar ministro agora é colocar um alvo nas costas do cara. Lula não vai fazer isso”, diz um aliado.

O caso do Ministério da Economia é um bom exemplo. O escolhido terá que lidar com a bomba deixada pela gastança eleitoral de Jair Bolsonaro. Receberá pressão instantânea do mercado. Trabalhará, portanto, contra o ímpeto da política de ampliar despesas para dar lastro ao discurso eleitoral de Lula. Anunciar o chefe da área agora criaria a curiosa situação de dar voz a alguém que terá de se opor aos arranjos políticos discutidos nestes dias. “É melhor que a gente aprove a PEC primeiro”, diz um petista.

Antes de anunciar o ministério, Lula quer diagnosticar o tamanho do problema que receberá de Bolsonaro. “Precisa ficar muito claro para a sociedade o tamanho do problemas que temos. Ou todo mundo vai cobrar o Lula. Ministro a gente anuncia quando tem condições de dizer o que vai fazer no governo. Sem saber como está o governo, portanto, não dá para anunciar muita coisa”, diz um aliado.

O anúncio parcelado de nomes da equipe de transição, com diferentes áreas, tem o objetivo de ganhar tempo e, ao mesmo tempo, pautar o noticiário do país. Será um processo longo, com muitas notícias plantadas de supostas ideias e propostas que o futuro governo poderá adotar. Nada, porém, será definido tão cedo.

 

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