Gosto de gente serena, pessoa que mesmo diante da adversidade mantém a calma. A serenidade e a mansidão são virtudes mais do que necessárias nestes tempos loucos e tóxicos que estamos vivendo e vivenciando.

Sexta-feira, 12/08, acordo, vejo o celular, uma mensagem da querida Margareth avisando que Sílvia, esposa de nosso amigo, Luiz Fernando, partira na tarde anterior, e que os serviços fúnebres seriam em uma Casa de Velório, no centro da cidade.

Comunico para Heloísa, companheira de jornada. Faço uma oração, falo com Deus.
Tomamos café-da-manhã, nos encaminhamos para o local onde Silvia estava sendo velada. Chegamos, avistamos o amigo Luiz Fernando: nos abraça, nos acolhe, com a paz dos que aprenderam que a vida é apenas uma passagem. Nos apresenta a outras pessoas. Fico em silêncio a observar o momento. Esquife fechado, em cima uma fotografia de Sílvia:, bela, sorridente, flagrante de um momento de felicidade, talvez, não sabendo que partisse tão cedo.

Uma reza é puxada por um parente, acompanhado por todos,
“Ave Maria cheia de graça,
O senhor é convosco
Bendita sois vós
E bendito é o fruto do vosso ventre, Jesus.
Santa Maria, mãe de Deus,
Rogai por nós pecadores
Agora e na hora de nossa morte, Amém!”

Somos seres de travessia, mortais, com prazo de validade. Estamos aqui de passagem. A vida é mistério, nunca saberemos: de onde viemos, porque viemos, para onde vamos, quando vamos?

Nosso Criador não permitiu que tivéssemos respostas para essas indagações.
Somos todos viajantes de uma jornada cósmica, poeira de estrela, girando e dançando nos torvelinhos e redemoinhos do infinito. A vida não é eterna, suas expressões são efêmeras, momentâneas e transitórias.

Luiz Fernando, Engenheiro Agrônomo, assim como eu, comparo-o à cana de açúcar. Quanto mais moído pelas dores da vida, pelas adversidades, mais produz doçura. Ele já havia experimentado a dor da perda da primeira mulher. Perdera Célia, mãe de seus três primeiros filhos para o mal que afeta cada vez mais a humanidade, o câncer.

Refez a vida ao lado de Sílvia, que nos poucos encontros que tivemos, a associei a alegria de viver. Bela, altiva, leve, alegre, bom papo. Nos encontramos em torno de mesa de café, em nossa casa, e nos bares da vida. Falamos de viagens, não realizadas, de vinho, de sonhos de futuro. Luiz Fernando, com suas marcas registradas, inteligência e bom humor, nos falou de sua mudança para a tórrida Santa Inês, a reforma de um imóvel, onde acolheria a família.

Como todos os casais, todas as vezes que LF escolhia um objeto para a casa, Silvia escolhia outro, que seria o objeto comprado, sendo a última palavra do meu amigo LF, “Tá certo”. Desse pitoresco episódio nasceu um samba. Os nascidos no Codozinho, têm o samba na veia.

Dois anos lutando contra o mal que lhe carcomia a carne, Sílvia partiu, deixando um legado de muitas e boas histórias. Teve a alegria em viver, e a serenidade de quem a rodeava.
Recorro à Seneca, “Na essência, o que realmente importa é viver bem, e não viver muito. Muitas vezes, o melhor é que a vida não dure muito tempo”.

Ou, “A duração de minha vida não depende de mim. O que depende é que não percorra de forma pouco nobre as fases dessa vida; devo governá-la, e não por ela ser levado.”; “O defeito maior da vida é ela não ter nada de comple­to e acabado, e o fato de sempre deixarmos algo para depois.” Ou ainda: “Não deixemos nada para mais tarde. Acertemos nossas contas com a vida dia após dia”.

Gosto de gente serena, bem aventurados os que aprenderam os ensinamentos bíblicos, e nesta hora de dor cortante, se mantém firme. Agora, quando o amor atende pelo nome de saudade, agradeçam à Deus pela oportunidade de terem compartilhado momentos únicos e especiais com Sílvia. Um carinhoso abraço, querido amigo Luiz Fernando.

Que Deus, em sua infinita bondade acalente o teu coração e de o Joana, fruto do amor de vocês, e que vocês sigam em paz, desfrutando tudo que essa vida tem de melhor, sempre lembrando que somos instantes, e num instante não somos nada.

Luiz Thadeu Nunes e Silva

Sobre o autor: Eng. Agrônomo, Palestrante, cronista e viajante. Autor do livro “Das muletas fiz asas”, o sul-americano mais viajado do mundo com mobilidade reduzida, visitou 143 países em todos os continentes da terra.