Na contramão da maioria da população brasileira, gosto do horário político eleitoral. Não perco um. Assisto por causa dos nomes dos candidatos, das propostas estapafúrdias, do cinismo canalha. Acho hilário, motivo de diversão. Afinal estamos no Brasil, o país da piada pronta. Um país que não se leva a sério.

Onde se vê nome como: Boga, Capeta, Doidão, Barriga Cheia, Barbie do Povo, Jiraiya Jaspion, Jiban, Bin Laden do Bem? No horário obrigatório eleitoral. Todos registrados no TRE, e candidatos a algum cargo nas eleições de outubro. É pra rir ou pra chorar? Não leitor, é para lamentar, pois nessa onda, muitos desses se elegem, vão nos governar.

Nós brasileiros estamos cansados. Após uma década de estagnação e muito barulho por parte dos áulicos de plantão, manipulando medo e desencanto, estamos assistindo nesta campanha, uma polarização estridente por nada.

Não há projeto de Brasil, nem projeto de futuro. Há, sim, projeto de poder, o que estamos assistindo nesta campanha. Tanto do lado do presidente que está no poder e tenta a reeleição, como do ex-presidente que governou o país por 8 anos e fez a sucessora em dois mandatos, totalizando 16 anos, são homens aquém do mais alto cargo da república.

Surreal, o Brasil assiste a disputa entre um ex-presidiário e um futuro preso.
Na atual campanha não há discursão de ideias, mas culto à personalidade dos oponentes. Está tudo tão tumultuado, quem discordar de um dos candidatos, imediatamente é taxado de inimigo do povo ou da democracia. Chamado de comunista por um lado, ou de fascista pelo outro. Como podemos romper esse ciclo? Difícil.

No primeiro debate, no último domingo, na TV Band, à frente de um pool de mídias, assistiu-se um circo, com muitas baixarias, e nenhuma proposta decente. Não se discutiu inflação, fome, desemprego, violência urbana, reforma agrária, educação, transporte coletivo, ou outros temas prementes.

Só para lembrar, de como não sabemos votar. Em outubro de 1960, o mato-grossense Jânio da Silva Quadros, louco de pedra, se elegeu com 5,6 milhões de votos — a maior votação até então obtida no Brasil, vencendo o marechal Henrique Lott de forma arrasadora, por mais de dois milhões de votos. Jânio Quadros renunciou, mergulhando o país em longo período de exceção.

Em 1989, a primeira eleição após a redemocratização, elegemos o energúmeno Fernando Antônio Collor de Mello, ex-governador de Alagoas. Tresloucado e inconsequente, foi apeado do poder através de um impeachment. Collor concorreu com Ulisses Guimarães, que tinha comandado a Assembleia Constituinte de 1988, com Mário Covas, ex-governador do mais rico estado brasileiro.

O eleitorado caiu na lábia de Collor, que se vendia como “caçador de marajá”, e o resultado todos sabemos. Triste e preocupante ver os dois principais candidatos, à frente da corrida presidencial, com que 80% das intenções de votos, segundo pesquisas divulgadas.

A se confirmar esse quadro, diante de tenebrosa situação, nunca foi tão atual a frase do jurista baiano Ruy Barbosa: “De tanto ver triunfar as nulidades, de tanto ver prosperar a desonra, de tanto ver crescer a injustiça, de tanto ver a agigantarem-se os poderes nas mãos dos maus, o homem chega a desanimar da virtude, rir da honra e ter vergonha de ser honesto”.

Como cidadão e eleitor, gostaria que surgisse um candidato honesto, boa intenção, amor ao Brasil, com a “ousadia dos canalhas”, nas palavras de Nelson Rodrigues. O voto deveria ser facultativo, e as promessas de campanha obrigatórias. O judiciário desse país tem a obrigação de acabar com a demagogia barata, irresponsável e inconsequente desses políticos.

No final do debate entre os presidenciável, na noite de 28/08, quem perdeu fui eu. Perdi tempo e meu precioso sono.

Luiz Thadeu Nunes e Silva
Sobre o autor: Eng. Agrônomo, Palestrante, cronista e viajante. Autor do livro “Das muletas fiz asas”. O sul-americano mais viajado do mundo com mobilidade reduzida, visitou 143 países em todos os continentes do mundo.